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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cor serpentis

Nas últimas décadas do séc. XX, embalados pelo desafogo económico do pós-guerra, que acabou por se fazer sentir em Portugal por volta dos anos 90, esquecemos que, como no título do romance de Yefremov, o capitalismo tem coração de serpente. Caíram por terra utopias socialistas e comunistas, encarnadas na União Soviética, que colapsou, na China, com a sua invenção “um país, dois sistemas”, nas caricaturas albanesa e norte-coreana. O capitalismo, esquecidos os sofrimentos do passado, foi aceite como o sistema menos mau, por preservar a liberdade, e o sofrimento das classes trabalhadoras nos séc. XIX e XX encarado como fatalidade histórica, finalmente ultrapassada pelo progresso e pela dura conquista de direitos: as oito horas, pelas quais tantos e tantas deram a vida, um salário decente, férias, apoio no desemprego, na doença, na velhice...
Porém, esse capitalismo do passado sobrevivia. Longe de nós, por exemplo no Paquistão, com crianças de oito e nove anos a labutar de sol a sol carregando tijolos escaldantes, acabados de sair do forno ­­-- como nos Esteiros; na China, onde os operários trabalhavam (e trabalham) em condições intoleráveis, quase idênticas às dos operários europeus na revolução industrial. Mas, acreditávamos, os orientais percorreriam o mesmo caminho que nós e acabariam por se libertar das grilhetas, haveriam de conquistar direitos básicos, cumprir regras de protecção ambiental, gozar de protecção na doença e na velhice.
Paulatinamente, o capitalismo ocidental, aparentemente civilizado, deslocalizou as fábricas para esses países, onde se trabalha por pouco mais do que o pão ou o arroz de cada dia e não há qualquer respeito pelo ambiente, movido não apenas pela ganância, pela sede de lucro que lhe é inerente, mas sobretudo pela procura absurda das riquezas virtuais e astronómicas em que os ganhos resultam não tanto da produção de bens e da prestação de serviços, mas principalmente  da especulação bolsista. Absurdo que faz com que as acções de uma empresa caiam quando tem lucros e distribuí dividendos, e subam quando anuncia dezenas de milhares de despedimentos. Ou quando compra outra bem rentável -- para a fechar. Ou quando...
Absurdo e imoralidade, de mãos dadas. Brilhantes correctores da bolsa e dos grandes grupos financeiros jogam com a vida das pessoas, empresas e países, indiferentes à miséria que causam, apenas interessados nos maiores ganhos dos seus accionistas, muitos dos quais nem em dez vidas a gastar à tripa-forra conseguiriam dissipar as fortunas já acumuladas. E eles, quais drones que assassinam à distância e do outro lado do mundo, sem ver os olhos do homem, da mulher, da criança cuja miséria agravam, enchem-se de orgulho pelas proezas diárias, são bem remunerados, promovidos, imperialmente gratificados pelo mal quotidiano que infligem.

Quando, anos atrás, após vigarices merecedoras de pesadas penas de prisão, os gestores desses grupos financeiros sentiram avizinhar a falência, eles e os seus gurus, que sempre tinham defendido a independência do capital face ao estado, exigiram protecção dos governos – e conseguiram nacionalizações originais, passando para o sector público os seus “activos tóxicos”, as quais podem ser resumidas na fórmula “o contribuinte suporta os prejuízos, nós embolsamos os lucros”. Não lhes foi difícil persuadir os governantes, que assim acautelaram o seu futuro: fora do governo, espera-os um cargo bem remunerado num conselho de administração, a que jamais acederiam não fora a política.
Agora, em nome da competitividade, querem igualar as nossas condições de trabalho, direitos laborais, salários e modo de vida aos que vigoram no terceiro mundo, e não o inverso, generalizando a precariedade, baixando os salários, endurecendo as condições de trabalho, diminuindo o subsídio de desemprego, dificultando o acesso à saúde, proletarizando os professores, lançando na miséria os velhos…
Entre nós, em nome da credibilidade internacional, e para que os grupos financeiros nos emprestem o dinheiro de que carecemos para lhes pagar os juros, espreme-se o povo, arruína-se o país: os juros baixam na razão directa dos tormentos infligidos, o que agradará aos calvinistas germânicos, aos cristãos fundamentalistas americanos, uns e outros convencidos de que a pobreza é castigo de Deus pela nossa preguiça, e a riqueza deles recompensa divina pelo seu labor.
Que ninguém se iluda: o capitalismo tem, sempre teve, sempre terá, coração de serpente. Era já assim quando Jesus zurziu nos ricos do Seu tempo -- uns santos, se comparados aos actuais. Os quais, tal como no Seu tempo, não têm qualquer pejo em combinar a hipocrisia religiosa com práticas ignóbeis. Fariseus, chamava-lhes Ele. Porém, para todos aqueles que, como eu, duvidam da vida eterna e da recompensa ou castigo após a morte, a Sua mensagem admirável, passados dois mil anos, pouca esperança de transformação do presente nos deixa. Decididamente, o Seu reino não é deste mundo. 
Que nos fica então, sem cristianismo, sem socialismo -- que, disse-me há quase quarenta anos João Machado (1), pode demorar dois mil anos a chegar, mas é inevitável?
Não sei. Por isso, tendo escrito por várias vezes neste blogue que o actual estado de coisas não é sustentável, fiquei-me por solução de sobrevivência possível, inspirada na resiliência do nosso povo.
Não surpreenderá, portanto, que pouco me motive a algazarra dos media em torno dos mandaretes nacionais da Troika, e me abstenha até de reproduzir os respectivos nomes, irrelevantes como eles próprios. Não passam de marionetes ao serviço da serpente.

(1)   Em jantar que reuniu perto de uma centena profissionais do MRPP da zona de Lisboa que haviam saído do movimento em protesto contra linha dominante e a que fui convidado por um amigo.

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