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domingo, 17 de novembro de 2013

Chiqueda ou Chaqueda?

            Ensinava a minha professora da primeira classe — o que é a memória de uma criança! — que se podia dizer de ambas as formas. Lá vivi, nessa aldeia dos arredores de Alcobaça, entre os seis e os sete anos, lá volto de vez em quando, em busca de referências que se ajustem às imagens bem nítidas das minhas recordações.
            Em vão. Quase nada corresponde. Nem sequer encontro a casa térrea onde morámos, de pátio acimentado, a represa que me fascinava, a mim, que nunca vira tanta água, tão límpida, e nela nadavam rente ao fundo cardumes de peixes enormes — tudo então era enorme! — e cintilavam difusos ao passarem por redemoinho que se formava junto à conduta de madeira enegrecida que canalizava a água para a roda da azenha, de cujas pás escorria cantante para a vala que a levava de volta  ao ribeiro   onde uma manhã afoguei gatinhos, mandado pela minha mãe. Um deles, malha branca na cabeça, mais teimoso, nadou para a margem e eu, com a frieza dos meus seis anos, com uma cana empurrei-o de novo para a correnteza e a morte. Algo me deve ter tocado, ou a crueldade do acto, ou a resistência do gatinho, que ainda nem os olhos abria, para nunca mais ter esquecido o episódio. E nunca mais afoguei gatinhos…

            Lá está a estrada nova, que vi construir, cujo alcatrão derretido pelo calor do Verão se me colava aos pés descalços. A estrada "velha", por onde ia para a escola. Uma tarde, voltei atrás, apavorado com bicho, e a ninguém dizia o nome, os rapazes, supondo que era cobra, armaram-se com paus e pedras e acompanharam-me sem que eu confessasse que o bicho aterrador era simples libelinha, a que chamávamos tira-olhos, e eu fugira receoso de que me arrancasse os meus... Estrada velha onde vi noutra tarde rapazes que se divertiam a masturbar o longo pénis de um burro. Estrada onde surpreendi a garotada caminhando empoleirado em andas, que eu mesmo construí, a partir de descrição ouvida a meu avô, em ida à aldeia — e logo eles, invejosos, fizeram muitas, melhores, mais altas do que as minhas, mas eu desinteressara-me delas e fazia rodeiros com rodas de beterraba, que logo se desfaziam e dava aos porcos, às galinhas.
            Na frente da casa ficava a padaria, onde me enganaram pela primeira vez, levando pão sem pagar — pagaram-no os empregados, que eram os meus pais. Recordo o quarto onde, luz acesa, li e reli o suplemento de sábado do Diário Popular, Ria Connosco, intrigado com o desenho de uma sereia, a primeira que vi; ao lado, no divã, a minha irmã, bebé de ano, dormia tranquilamente sob o meu cuidado, consolada com o biberão de água com açúcar que lhe dera. Eu, inquieto, assustado, com a demora dos nossos pais tinha medo de adormecer, passavam as horas, e eles sem aparecer, eu sem saber deles!
            Era noite alta quando chegaram, tinham ido à terra na motoreta pensando demorar pouco, mas no regresso souberam que estava emboscado polícia da Viação e Trânsito na caça às multas — dois na motorizada, o que era proibido, a pendura sem capacete... E estava por pagar outra, trazia-me o meu pai na motoreta, e o polícia surpreendeu-nos numa curva junto à barragem da fábrica da Fervença, em vão lhe falou o meu pai ao sentimento: tinha-me levado à terra a ver os meus avós, tão pequeno não podia fazer a jornada a pé...

            Nada esqueci. Só não consigo encontrar a Chaqueda ou Chiqueda da minha infância, e ela, no entanto, está lá, irreconhecível sob as novas casas, desfigurada pelos arruamentos. Muito mais bonita, luminosa, com uma história em cada pormenor...

FOTO: azenha que não é a da minha infância, antes do restaurante onde casou a Sofia.

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