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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Corte na aldeia

Toca o telemóvel.
—  Queres almoçar amanhã connosco?
— Sim, com todo o gosto. Estou na aldeia, mas regresso logo à tarde, conta comigo.
— À uma, no Alto Pina.
— Sim, mas consegues estar lá a essa hora? Com este frio deves ter montes de doentes...
— Aparece à uma, vais-te entretendo com as entradas, que eu não demoro.
Vamo-nos juntando. Um engenheiro que rompeu com  o Partido Comunista após quarenta anos de militância. Um pára-quedista reformado, meio surdo das explosões da guerra da Guiné. Um industrial. Um ancião, sempre muito bem posto, que foi contínuo na primeira escola em que trabalhei, perfeito gentleman, hoje como então — para recolher os estênceis, batia à porta da sala de professores e antes de entrar sempre perguntava se os senhores professores davam licença. Um poeta e historiador, que foi presidente de conselho directivo dessa escola até se aposentar. Um advogado. O médico anfitrião. E este cronista, sempre agarrado à comida como a querer matar carências dos velhos tempos. E à bebida. Não ao "louro chá no bule fumegando", tão do agrado das pessoas finas, mas ao roxo tinto, que desde Homero faz as delícias dos poetas, escritores e amantes das letras.
De que se fala nesses almoços só de homens, sem jovens? Política, futebol, trabalho, sociedade, família? En passant. A acompanhar as entradas. Dos conhecidos? O necessário para saber — O que é feito dele, há tanto tempo que o não vejo! —  Pois encontrei-o na semana passada...
Dos velhos tempos? Apenas para recordar boas histórias, primorosamente contadas.
Dos dramas existenciais? Sim,  que não acreditamos em vida após a morte, nem nos alegra eventual reconhecimento póstumo, mas, mesmo assim, e apesar de tudo, teimamos em escrever poemas, textos, contos, romances, como se...  E todo o restaurante ri à gargalhada quando o poeta resume as glórias post mortem que nos aguardam: — A viúva vai ao cemitério pôr-nos flores, lá conhece viúvo também ele choroso, juntam-se...
O mais é o filme que apreciámos ou não, os livros, as crónicas do Lobo Antunes na Visão, a exposição de pintura do nosso amigo João Alfaro. Depois, mesa limpa de pratos e travessas, vem a poesia.
A voz do poeta embarga-se ao ler o seu  "In memoriam Do Amílcar Fialho" (para nós, o Padre Amílcar). Interrompe-o o industrial, com a rudeza a que a amizade masculina recorre para esconder as lágrimas:
— Dê cá isso, que você não sabe dizer os seus poemas!
...se ele pudesse
ainda estar aqui
com o seu coração do tamanho
das tasquinhas do mundo
com sua voz rouca de fumo e álcool...

Recordamos o padre falecido, homenzarrão pleno de força, vozeirão a trovejar pelos corredores da escola, impressionante de aspecto, bruto de modos — homem bom como poucos, amigo de ateus e de comunistas.
Depois, "Almondinas":

Dizem que o rio chora toda a noite
Nas lágrimas tombadas dos salgueiros.
(...)
Dizem que o rio canta toda a noite...
Ou são os pássaros que traz na voz
Que soltam o seu canto a perseguir o vento
E as pedras nuas da distância?
Almonda! Almonda! Almonda!
Um eco...
(...)
Senta-se connosco a proprietária do restaurante, mulher gira e simpática, a fazer as suas recomendações para a sobremesa. Doentes do médico vêm-no cumprimentar, chegam-se conhecidos, o farmacêutico da aldeia, delegados de informação médica. Puxamos mais cadeiras para a mesa, oferecemos hospitaleira a garrafa, aplaudimos as canções de jovens, engenheiros agrícolas e comerciais de empresa da região, que em mesa próxima tocam e cantam maravilhosamente.
Fora, o sol outonal, já baixo, estende longas sombras das árvores pelo pátio, a lembrar-nos que vão sendo horas de partir. Ainda prolongamos pelas despedidas conversas inacabadas, que a fria nortada obriga a abreviar. Retomá-las-emos no próximo almoço. 

NOTAS:
(1) Título roubado ao poeta leiriense Rodrigues Lobo.
(3) O verso "o louro chá..." é, toda a gente o sabe, de Correia Garção.
(2) O poema In Memoriam é do António Mário; Almondinas, de Maria Sarmento.

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