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domingo, 22 de setembro de 2013

Sol de Inverno

Nada tem a ver com a telenovela da SIC. É o título do Capítulo 9 do meu romance Entre Cós e Alpedriz (2007), a que pertence este excerto:

Nuvens baixas correm pelo céu, das Sesmarias para a Santa Rita e, muito mais acima, outras vogam lentamente em sentido contrário, vagas, fluidas, incertas, indiferentes às vinhas perdidas que sobrevoam. Já o Sol de Inverno se esconde por detrás do Alto Casal, o dia arrefece, a luz intensa desaparece, fundindo-se com as sombras do crepúsculo. Ah, se estivesse agora nas Tojeiras, vê-lo-ia mais uma vez desaparecer ao fundo entre os pinhais que ocultam da vista o mar, onde se afundará tingindo-o de rubro.
Mar, mar, tão próximo e tão distante, mar gelado no Verão, afagando-lhe os pés descalços, mar cinzento no Outono, cheiroso do mexilhão com que enchia saca de serapilheira para patuscada na adega, mar violento no Inverno, quebrando-se contra molhes e penhascos, mar azul na Primavera, mar das sardinhas e dos chicharros, onde lavram pescadores em ceroulas de flanela, mar que chega aos Montes trazido pela maresia quando o vento sopra de feição ou nas canastras das peixeiras, as pexinas, correndo para evitar que outra chegue primeiro a casa da freguesa, sempre apregoando o pescado com a musicalidade do falar da Nazaré...
Mar — vê-o nitidamente, tal como o avistou do Sítio quando levou o filho Francisco pela primeira vez à praia, teria o moço então uns seis anos. Ah, como lamentava agora o rigor com que tratara a criança, surra em cima de surra, ralhos sobre ralhos, proibições de fazer isto, de andar com este ou com aquele, e nem a desculpa de ter procedido como todos os outros pais, como o seu próprio pai procedera para consigo, lhe servia já de atenuante. Fora brutidade, fora ignorância, fora maldade, e ainda bem que já havia quem começasse a quebrar o costume que se arrastava há tantas gerações que parecia perder-se na origem dos tempos; vê crianças semi-nuas, vestindo apenas uma camisola interior que já não lhes tapa a barriga inchada pela subnutrição, descalças sobre geadas de Fevereiro, arrancando lâminas de gelo da superfície de poças de água, o ranho escorrendo pelas faces — para “enrijar”, dirão rindo cinicamente as bestas dos pais, tentando assim justificar a crueza com que tratam a prole... Logo, logo, o remorso cede lugar à imagem da água do mar espelhada nos olhos do moço enquanto caminhavam ambos pela beira-mar, os pés finalmente livres das botas que todo o ano os aprisionavam, o perfume da maresia enchendo-lhes o peito, o céu azul cortado pelo voo branco das gaivotas, as sardinhas prateadas palpitando nas redes, a alegria resplandecendo no rosto dos pescadores,
como camponeses após abundante vindima — e lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavalinhos do carrossel na Feira de São Bernardo, sempre correndo, ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar! Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as crianças que tinham visto pouco antes a entrar...
(A quem possa interessar: o romance está à venda na Leya Online. Em papel, pode ser encontrado, por exemplo, no Parque dos Monges).

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