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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ainda o piropo

Com o piropo na ordem do dia, certamente por falta de matéria mais importante, e não querendo deixar de, também eu, me pronunciar sobre assunto tão relevante, fui buscar o excerto que se segue a Do lacrau e da sua picada:

"Estranha o vazio e a tristeza do Largo do Santo António, sem os seus reformados, uns jogando às damas, outros espreitando gulosos a passagem das raparigas a caminho da escola ou das lojas, esquecidos de que o seu tempo já lá vai, embora se sintam obrigados a fazer o seu papel, uma vez que os novos, como o Luís, não dão mostras de lhes suceder dignamente.
— Ah, rapazes, havia eu de ser outra vez novo, ter agora vinte anos, e saber o que sei hoje!
Ignora-se que sabedoria seja essa, não se enxerga nada que preste, apenas uns piropos grosseiros a moças que bem podiam ser netas; elas seguem na mesma o seu caminho, só que furiosas, vociferando entre dentes, — Cota de merda, velhadas do... ,
Não admirará se qualquer dia uma enfiar a mão na cara do galã fora de prazo, os tempos mudaram e eles não se deram conta disso, enfim, não os critiquemos mais, cada um sabe de si e Deus Nosso Senhor de nós todos, o que é certo é que o largo não parece o mesmo sem eles."

2 comentários:

João Andrade disse...

Salvo erro, esse excerto é retirado do capítulo "Luis, o petiz", capítulo que, na minha opinião, é o mais bem escrito (e conseguido) do romance. Ali fica descrito o natural lenitivo de qualquer bonus pater familias ou, em portugês, de qualquer homem médio: o cenário campestre. Outros capítulos existem, - como aquele em que António se lança na demanda de Lúcia - bem esgalhados, com interessantes apontamentos, como por exemplo aquele que refere o facto de, nos dias de hoje, inexistirem bicas de água nas terras, a fim de que um viajante se possa refrescar convenientemente.
Gostei de ler.

Jose Catarino disse...

O título do capítulo, Luís, o Petiz , foi inspirado numa tira de banda desenhada do velhinho Diário de Notícias: Luís, o Traquinas.
O Lacrau resultou de uma colagem de vários textos, motivados por versos e canções, escritos ao longo dos anos, posteriormente reciclados e unificados numa estrutura comum pelo fio condutor da história. Recordo-me de que para tal tomei como referência uma obra que muito me marcou na juventude: Pastagens do Céu, de John Steinbeck.
Como digo na "Advertência", "assumo as fragilidades desta obra: narrativa linear, personagens comuns, ambiente de província, descrições escassas... Tal como Camilo, "eu não cessarei de dizer mal deste livrinho...""
Muito obrigado pela crítica. Agradou-me em especial que tenha gostado de ler. Foi essa, aliás, a questão que então mais coloquei aos primeiros leitores: Gostaste? Lê-se? E só as respostas positivas a estas duas questões me encorajaram a trazer o livro à luz e a deixar de escrever na clandestinidade, às escondidas, inclusive da família.
Um abraço.