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sábado, 27 de novembro de 2010

As enguias

Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Mei×ão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada... As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”
Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil...
Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados ao tango do Orçamento…

Publicado no Delito de Opinião, convite de Pedro Correia. Muito obrigado!

1 comentário:

Reinaldo Amarante disse...

Tu és terrível, Zé. Um petisco que gosto tanto e que poucas vezes como, conseguiste fazer um drama, como se não bastasse o do tango do orçamento. Deixa-me saborear as ditas, bem fritinhas com uma boa açorda e uma fresca salada enquanto não chegam os prometidos cortes. Bem podias ter escolhido outras bichas (salvo seja!). Tinhas logo de ir às enguias.