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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Pêssegos

Comigo, tudo tem história. E histórias. Estes pêssegos, por exemplo. Semeio os caroços, transplanto as arvorezinhas que nascem para vasos que ofereço aos amigos,
-- Não quero! É árvore melindrosa, exige muitos tratamentos, ocupa terra, exige cuidados durante todo um ano para produzir durante quinze dias! Mais vale comprar na frutaria! 
Mitos. Há lá fruta melhor que a caseira, vinda na sua época?
E a minha mulher:
-- Planta-os no Casal, o teu tio Zé tinha lá pêssegos fantásticos!
Assim dividimos tarefas. Ela a pensar, eu a fazer.
No ano seguinte: -- Devias enxertá-los!
Sim. Mas a vista é má, as mãos tremem. Vamos (moramos a sessenta quilómetros do Casal) os dois. Eu digo como é, tu fazes.
Ei-la promovida a oficial enxertador. A saber mais do que o mestre, logo à primeira enxertia. Deita os olhos para o belo pomar industrial do vizinho, de frutos lindos, a dobrarem as ramagens com o seu peso.
-- Vai ali ao teu vizinho tirar umas borbulhas.
-- Não vou sem autorização.
-- Que mal tem tirar uns raminhos?
Aqui o povo dá tudo, basta pedir. Mas ai de quem se apropriar de uma simples palha alheia!
Por sorte, chega o dono. Sorte porque lhe posso pedir, sorte porque me não apanhou a roubar-lhe umas vergônteas: -- Joaquim, dás-me meia dúzia de borbulhas? 
Que levasse as que quisesse. E ele mesmo me indica as melhores qualidades para um amador, daquelas que os mercados não apreciam, ou pelo calibre, ou por não aguentarem o transporte e a conservação. Assim se têm perdido algumas das melhores variedades, como o "Jota Galo" (J. Halle) da minha infância, os pêssegos mais saborosos que alguma vez comi.
Diz-se que pegam melhor enxertos e estacas roubadas. Outro mito. Aqueles já produzem. Por enquanto, o suficiente para as provas.

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