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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Inteletuais

 Sou,  como é sabido, opositor ao novo acordo ortográfico, que me recuso a aceitar. Mas, mesmo na lógica interna desse acordo, as consoantes  oclusivas devem ser grafadas, i.e., escritas, sempre que são articuladas, i.e., pronunciadas. Por exemplo, 

“É um faCto” e não “É um fato”.

“É um facto que mandei fazer um fato ao alfaiate”.

Assim, e sem ter ouvido o respectivo arrazoado, sou levado a pensar que para a televisão este cavalheiro, que nem sei quem seja, não é um inteCtual que se posiciona inteleCtualmente, mas sim um “inteletual“ que se posiciona “inteletualmente”.


Cacofonia

 Cacofonias


Ouve-se frequentemente dizer “passe a cacofonia“ em situações em que, obviamente, se pretende dizer “passe a redundância“, “passe o pleonasmo”, etc.

 Como exemplo de cacofonia, veja-se esta de Quim Barreiros, um mestre na sua exploração: “…vaca, galo…“(vá cag…). Ou, num registo erudito,  este exemplo de cacofonia em A Capital, de Eça de Queirós: “nunca cauda…“ (Ca-cau).

É com este sentido que a palavra está dicionarizada no Priberam:

cacofonia

nome feminino

Som desagradável ou palavra obscena resultante da união de sílabas ou palavras diferentes. = CACÓFATO, CACÓFATON ≠ EUFONIA


Origem etimológica:grego kakofonía, -as, som desagradável.


"cacofonia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/cacofonia.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

A Idade de Ouro (reposição)

 Longe vão os meus tempos de pregador. Hoje, sem pretender converter, nem sequer convencer, as polémicas não me motivam como antigamente e fico-me pela contra-argumentação, na esperança vã de que os factos que avanço levem os meus opositores a considerar, tenuamente que seja, que podem não estar tão carregados de razão como se julgam.

Mas, assim mo mostra a vida e confirma a realidade facebookana, esgrimir argumentos é inútil contra a fé, seja ela a religiosa, seja a das causas que se vão construindo sob os meus olhos cépticos: agricultura ‘biológica’, medicinas alternativas, acupunctura, vegetarianismo, alimentos milagrosos que até curam o cancro e se acaso fracassam é porque ou o doente os descobriu demasiado tarde, ou porque os não consumiu da forma adequada, ou com fé suficiente, atitudes anti-científicas que rejeitam as vacinas, desdenham dos medicamentos, põem em causa evidências como a da Terra ser esférica, ou o homem ter descido na Lua, embora, estranhamente, pareçam aceitar que algumas das nossas naves já viajam para fora do sistema solar...

Será a saudade do passado que me leva a considerar muito mais poética a ignorância meio século atrás, com espíritos e espiritistas, almas assombradas e exorcistas, crendices que me deixavam apavorado por ter ingerido cabelo, a medo que se transformasse no meu interior em cobra, a benzer-me para afastar Satanás, a mijar nas feridas para as desinfectar?

Certamente. Mas a ignorância de antanho resultava da falta de informação. A de hoje envolve sobretudo gente dos meios urbanos, com estudos, que se enreda em argumentos e justificações palavrosas, ignorando uns factos, deturpando outros segundo as suas conveniências, não raro sustentando as suas crenças, inevitavelmente assertivas, em “estudos” facilmente desmentíveis.

Por exemplo, partem de factos inegáveis, como os efeitos secundários dos medicamentos, ou os perigos da utilização dos pesticidas agrícolas, para desencadearem campanhas contra o uso de uns e outros, não querendo ver, pois a fé é cega, que o nosso bem-estar depende crucialmente da utilização correcta de uns e de outros.

Sou velho. Já vivi mais do que o meu pai, talvez tanto como o meu avô Cipriano. E lembro-me muito bem, que as recordações do passado são as que a memória melhor retém, de como era a vida meio século atrás, num Portugal pré-científico, subnutrido e cheio de doenças. Infantis, que as vacinas evitaram. Crónicas e incapacitantes que os medicamentos curaram  ou tornaram suportáveis. Em que o cancro — sim, comia-se tudo biológico, mas morria-se igualmente de cancro — se tratava pondo-lhe ovos cozidos por cima, para que o cancro os comesse em vez do doente. E com rezas, que pouco mais havia.

Essa época, com escasso conhecimento científico, quase sem remédios (lembro-me das sulfamidas, da tintura de iodo, do melhoral, mais tarde do Vick Vaporub), em que apenas comia ‘biológico’ do que havia, quando o havia, não foi uma Idade de Ouro. Foi uma idade de sofrimento. Onde, como diz Álvaro de Campos, eu era feliz e ninguém estava morto. Sobretudo por isso.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Sapateiros remendões

 Os doutos economistas Marcelo e Portas (também brilhantes estrategas, mas isso agora não vem ao caso), rejeitam as previsões algo pessimistas do governador do Banco de Portugal, a quem, e não há muito, chamavam o “Ronaldo da Economia”. O maquiavélico Marcelo, bem mais calado desde que eclodiu o escândalo das gémeas brasileiras, ainda aproveitou para dar ferroada, insinuando que Centeno já está em campanha para as presidenciais -  o bom julgador julga os outros por si, diz o povo.

Quem vos mandou, ó sapateiros, tocar rabecão?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Lobos com pele de cordeiro

Ensinaram-me os anos e as muitas leituras a desconfiar dos lobos vestidos com pele de cordeiro. E, também, a procurar descortinar a realidade, sempre  ofuscada pelos desejos.

domingo, 1 de dezembro de 2024

O beija-mão

 António Costa já foi a Kiev prestar vassalagem ao boss.

Manda quem pode, obedece quem deve.