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sábado, 24 de novembro de 2012

Uma casa portuguesa

(O fim-de-semana está chuvoso, a pedir borralho e leitura. Por isso, aqui vai conto, Uma casa portuguesa, 4 pp.)


Do lado de lá, na televisão, esganiçam-se apresentadores e convidados, a transbordar energia, esfuziantes de alegria; do lado de cá, no sofá, a família finge prestar-lhes atenção, constantemente interrompida pela gritaria das crianças que, por entre os adultos, por cima deles, brincam e brigam, correm, saltam, caem, choram. Inútil mandá-las sossegar, elas não pararão, indiferentes à preocupação dos graúdos, inconscientes das desgraças do mundo.
Entra homem jovem, encasacado e engravatado mau grado o calor, saltam-lhe para os braços as crianças, — Papá, papá!, e empurram-se para lhe contar novidades e brigas, fazerem queixinhas reciprocas, — Ele bateu-me! — Porque me estragaste o carro do Faísca! Aos adultos, basta o seu ar pesaroso para adivinharem o desfecho de mais esta entrevista de emprego: 
— Nada. 
Atira-se desalentado para o sofá, afasta um pouco os filhos: — É sempre a mesma coisa. No fim, escolhem o candidato mais novo. Meneia pesaroso a cabeça e acrescenta: — Não adianta, não vale a pena continuar a tentar, fracasso sempre...
O sogro nada diz. O seu silêncio grita por si: não dá para continuarem todos a viver da sua reforma, magra e recentemente amputada de um terço por penhora — créditos bancários não pagos, encargos banais anos atrás, que hoje o perseguem como a outros o homem do fraque.
Todos tinham uma pontinha de esperança naquela entrevista: o lugar era modesto, vendedor, o moço tem apresentação, tem conversa, frequentou a universidade, tinha já passado nos psicotécnicos, talvez, talvez... E como precisavam daquele emprego, quinhentos ou seiscentos euros não é muito, mas nos tempos que correm há que deitar mão ao pouco que ainda aparece, não pode haver esquisitices, doutorices...
— Vou emigrar, desabafa, talvez para que o dissuadam, a ele que vem destroçado desta derrota, a última de tantas outras, a ele que bem conhece a penúria em que vive a família, a ele que detesta viver às sopas do sogro, a ele que também sabe que isto, assim, não pode continuar.
Que emigre, pensa o sogro, que vá para o raio que o parta, desde que desampare a casa e o sofá, se não se der bem pelo estrangeiro, pelo menos é uma boca a menos a sustentar, e que boca, o desemprego não lhe tira o apetite, é uma presença incómoda a menos, um a menos a disputar o comando da televisão, agora reduzida a quatro canais desde que a tv por cabo foi cortada por falta de pagamento — outro processo por dívidas que corre contra si, que bom que seria se, perdido no mar de calotes que afoga os tribunais, prescrevesse antes do julgamento. E se lá no estrangeiro o genro se der bem, chamará para junto de si mulher e filhos, ufa, que alívio, não será o desafogo, mas, pelo menos, o sossego. Sim, gosta de ter consigo a filha e os netos — na Consoada, num ou noutro almoço dominical, é pessoa de antigamente, do "casamento, apartamento", ah, bom tempo esse em que os filhos não nos caíam em casa depois de casados: — Pai, tivemos de entregar a casa ao banco, não podemos ficar na rua, tens um quarto livre, uma salinha de costura onde as crianças podem dormir...
— Mas, objecta a filha, lá fora as coisas não estão famosas.  Ainda há pouco vimos na televisão — não foi, pai? e olha-o na esperança de lhe ouvir palavras que dissuadam o marido de partir — portugueses na Suíça e na Inglaterra que dormem nos automóveis e passam fome, enganados pelos patrões...
— Que faço então? – e olha também ele para o sogro, à espera de resposta, algo como deixa-te ficar, estamos apertados mas ainda cá cabes, onde comem seis comem sete, basta acrescentar água à sopa, isto como se os jovens de hoje se contentassem com a lavadura das gamelas de antigamente, adubada com sardinha repartida irmamente, rabo para o pai, cabeça para a mãe, lombinhos para a filha...
Mais uma vez, o sogro nada diz. Cogita, talvez, que para ele e para a velhota, a reforma, mesmo cortada, chegava, aconchegada com a mísera pensão de sobrevivência da sogra, meses atrás retirada do lar, na impossibilidade de o continuarem a pagar. Semi-falido, como pode arcar com as despesas de três famílias? E ataca-o novamente a vontade louca de sair para comprar A Bola e não mais aparecer, recomeçar talvez num outro qualquer lugar, sozinho, sem encargos nem responsabilidades, nem créditos nem dívidas vencidas, nem Finanças a persegui-lo encarniçadamente… ah, se o país fosse à bancarrota! Toda a gente falida, todos pobres, sem credores à perna! Mas logo lhe ocorre que a sua reforma, esses setecentos e quarenta euros, reduzidos pelo tribunal a quatrocentos e noventa e três, desapareciam também, em lado nenhum há empregos, e então na sua idade... 
Como refúgio de emergência resta-lhe na aldeia o casebre arruinado onde nasceu e que só não vendeu por falta de comprador, tal como três míseras leiras de má terra que não o sustentariam, mesmo com vontade, esforço e saber, coisas que não tem, nem nunca teve. E, no entanto, na sua meninice, as pessoas sobreviviam lá, numa parcimónia inconcebível hoje em dia, sem água canalizada, nem electricidade, nem gás, nem casas de banho, nem televisão, nem telefone, nem carro, nem computador, nem internet... Sem contas para pagar, comendo o que a terra dava antes de serem por ela comidos, poupando cada tostão, fugindo de dívidas como o Diabo da cruz — assim se sobrevivia. E havia momentos de felicidade, serões em que se escolhia o feijão ou se descamisava, as vindimas, a matança do porco, a feira na vila, baptizados, casamentos, funerais, até!  Havia gente feliz! Ele, por exemplo. Por riqueza um pião, alguns berlindes, muitas caricas. Descalço mal saía da escola, indiferente a topadas, chuva, gelo que fosse. Ah, era rijo. E, sim, feliz: não é preciso muito para ser feliz – basta ser criança. Mas ser criança é precisamente aquilo que os anos não permitem que voltemos a ser, excepto como caricatura, o juízo perdido por senilidade. 
— Vou sair um pouco, para espairecer, diz.
— Onde vais? Pergunta a mulher, como se lhe tivesse lido os pensamentos, quarenta anos de coabitação dão para isso.
E ele, ao que um homem chega, justifica-se, sinal de que a consciência o incomoda. De outra forma, como compreender que aos sessenta anos, feitos no mês passado, reformado, arrimo de três famílias, precise de desculpas para ir ao café, sair do harém – três mulheres e uma menina – olvidar as desgraças familiares por entre uma suecada, um café ou uma mini, acesa discussão com os antigos colegas da repartição sobre a governação, o futebol, o mau funcionamento da justiça, o desemprego: vinte anos atrás, facilmente empregaria a filha na repartição, o genro até, mas esse longe de si, talvez na Câmara, onde uma sua cunhada era então a chefe de secretaria. Coitada, triste fim o seu, cancro atroz e fulminante... Que choruda reforma não teria hoje, e solteirona, que boa ajuda seria... Agora, os tempos mudados, os lugares no funcionalismo preenchidos, nenhuma hipótese de empregar a filha ou o asno do genro, incapaz de ser arrimo da família, homem da casa dele. À saída, deita-lhe olhadela de desprezo, vê com desagrado que ocupou o seu lugar ao canto do sofá e, como se fosse o chefe de família, se apropriou do comando da televisão enquanto resmunga — Agora não! ao filho, que lhe pede a leitura de uma história, e incomodado com o olhar de censura da sogra, em jeito de desculpa, acrescentará: — Foi um dia terrível, estou na fossa, já não acredito que um dia venha a ter trabalho.
Não acredita ele, não acredita o sogro, não acredito eu: basta ouvir as notícias, um terço dos jovens está desempregado. E este, em vez de se fazer à vida, desalenta no sofá, como se esperasse que os empregos o viessem procurar a casa... Surpreendido, o sogro ainda o ouve exclamar, meio justificação, meio protesto: — Roubaram-nos o futuro!
As mulheres olham-no intrigadas, não é todos os dias que profere frase tão apropriada, onde a terá ouvido?
Soergue-se, sentindo-se ouvido, escutado: — A culpa é da geração anterior, com emprego para toda a vida, acomodada em direitos adquiridos. Enquanto os velhos não morrerem, não há esperança para nós, os jovens.
O sogro ainda faz menção de voltar atrás para lhe lembrar que são os seus direitos adquiridos que lhe dão tecto e mesa, a ele e à família, mas cala a objecção, inútil começar briga, problemas de mais tem eles todos, e segue para o café, a mini e a sueca, a cogitar como seria bom desaparecer, deixar casa, família, calotes e genro e viver de couves e batatas no casebre abandonado na sua aldeia natal...

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