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quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Caixinha e o caixão

Cheguei um pouco atrasado à primeira aula da manhã, já os corredores do Instituto Comercial estavam vazios. O professor de Elementos de Direito Civil, Caixinha de seu apelido, pessoa de ordinário afável, camarada, sempre a insinuar que também ele estava contra o regime, parecia esperar apenas por mim para começar raspanete exaltado: ele a tratar-nos bem, como pessoas, nós a espetar-lhe a faca nas costas, mas daqui para a frente outro galo cantará, acabaram-se as confianças, cada macaco seu galho!
Consciência tranquila, nada sabendo, nada compreendendo, olhava-o fixamente, a tentar perceber o que o teria zangado daquela forma -- pelos vistos comigo, e os meus colegas da dianteira pareciam confirmar as suas suspeitas, voltando as cabeças para trás, para mim, como se eu fosse o responsável pela fúria sonorosa que se tinha apossado do homem.

Numa qualquer interrupção, talvez a receber o livro de ponto, bichanei a colega do lado: porque é que o Caixinha estava tão bravo?
Passou-me à socapa panfleto acabadinho de sair, emanado da clandestina Pró-Associação de Estudantes, composta predominantemente por alunos expulsos nas greves dos anos anteriores, os quais agora integravam também o Estar na Luta, de Económicas -- onde o pasquim fora elaborado.
Da primeira à última página, professores e funcionários eram ofendidos, ridicularizados. E encontrei, pelo meio, desenho tosco, feito a estilete no estêncil, de uma faca e um caixão, a ilustrar texto com título sugestivo:
CADA CAIXINHA FABRICA O SEU CAIXÃO
Compreendi então. As evidências estavam contra mim, desde o meu aspecto -- cabelo comprido, barba, camisa de camuflado comprada na Feira da Ladra --, ao comportamento e às companhias: chegara atrasado, como para evitar que me relacionassem com o panfleto, e viam-me amiúde com revolucionários; não sabiam, não podiam saber, que eles, no entanto, não confiavam em mim, que era então anarquista, e por isso mesmo me não tinham posto a par dos conteúdos do panfleto, nem mo tinham dado para distribuir.
No intervalo, avisto o Luís M., "estudante" que apenas entrava no Instituto para agitação: -- A malta, pá, tem que se unir, pá, contra o director, pá...
-- Então, já leste? Tá bom, não tá?
Protesto. Mal escrito, conteúdos injustos e reles. Então o do Caixinha...
-- Um bom filha da puta, pá! Os professores são todos fascistas, pá, ou social-fascistas. Uns bufos! E tu, ou estás com os estudantes e a luta, ou estás com o inimigo. O do Caixinha está muito bom, os estudantes gostam, pá, já muitos mo disseram, pá, há que desmascarar esses gajos que se fingem amigos dos estudantes, pá... Fui eu que o escrevi, podes ir bufar-lhe...
Obviamente não fui. E no ano seguinte, cabelo curto, barba rapada, vestuário normal, eu era já um "estudante progressista", de dia a manifestar-me nas ruas de Lisboa berrando vivas à ditadura do proletariado, de noite a pintar nas paredes Abaixo a guerra colonial, a distribuir pelas caixas de correio tarjetas com votos de longa vida ao camarada Mao...

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