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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Reflexões sobre o estilo (1)


Encontro, por vezes, textos que dão conta de alguma preocupação com as ferramentas do escritor – se prefere o computador, a caneta, a velha máquina de escrever… Considero esta questão perfeitamente desinteressante: Homero não utilizou nenhuma delas, como as não utilizaram Fernão Lopes, Camões, Camilo ou Eça. Só há uma ferramenta que conta: a mente do criador, e só há um resultado que conta: a obra final produzida. Tudo o resto, dos meios de produção ao que o autor sentiu ou pensou, se escreveu na cama ou no comboio, são pormenores irrelevantes e distractivos.

Já a reflexão sobre o estilo me parece muito mais produtiva, talvez por ser uma das minhas obsessões. Importa esclarecer: não sou (nem aspiro vir a ser) crítico literário; o estilo interessa-me como elemento fulcral da obra, uma vez que condiciona a voz do narrador e todo o discurso (o modo como a história é contada). Ora em alguma da literatura portuguesa contemporânea predomina um estilo oralizante, avesso a convenções ortográficas e a convenções da narrativa (e.g., suprimir os elementos que permitem identificar o discurso directo) que, pesem embora eventuais vantagens – polifonia, envolvimento do leitor na construção da narrativa, ritmo rápido pela inexistência de "travões" como seriam as maiúsculas, etc., resulta obscuro, chato, não raro ilegível (terá algo a ver com a história do rei que ia nu?) e eu, leitor que procura o prazer do texto, rapidamente me enfado e ponho o livro de lado, sem me deixar impressionar pelo nome ou pelo currículo do autor.

Pode objectar-se que os tempos mudaram, já ninguém escreve com a limpidez de Camilo, o rigor de Eça. Mas, mesmo sem puxar pela cabeça, saltam logo contra-exemplos: Yourcenar, Vergílio Ferreira, García Marquez, Mário de Carvalho…

Fico-me na fé do Padre Vieira. Desagradava-lhe o estilo predominante na sua época: "[u]m estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza" e defendia que "[o] estilo há-de ser muito fácil e muito natural (…) Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem." (in Sermão da Sexagésima)

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