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quinta-feira, 4 de abril de 2013

No Canal Caveira

Os diálogos, sobretudo ao telefone, são frequentemente de uma pobreza confrangedora, especialmente visível quando reproduzidos por escrito, sem a mímica, os trejeitos faciais, a entoação, o alongamento de vogais, as onomatopeias adequadas, os beijos repenicados no ar, hum, hum...
Há um ano, ainda era eu professor, registei para a posteridade este diálogo (ou monólogo, ou mero exercício da função fática da linguagem, não sei bem),  ouvido e sofrido na sala de professores, enquanto aguardava que a colega ao telemóvel acabasse de lançar as suas classificações e libertasse o computador para que eu pudesse introduzir as minhas.
-- Onde tás?
-- O quê? No Canal Caveira? No Canal Caveira?
-- Ah, tás no Canal Caveira!
-- ... No Canal Caveira!
-- Muito bem! No Canal Caveira...
-- Sim senhor! No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- No Canal Caveira!
-- No Canal Caveira!
--Tás a brincar!
--Tás a brincar comigo! No Canal Caveira!
--Tu, no Canal Caveira!

Muitos canais caveira depois:

-- Beijinhos, tchau tchau!
-- Hum! Hum! beijinho, beijinho!
-- No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- Tu, no Canal Caveira!
Hum, hum, jinho, jinho grande, grande, hum! hum!!

E eu, já por natureza impaciente, a ver o tempo passar, consegui resistir, contive-me e não lhe disse: -- Acredite, colega, o gajo está no Canal Caveira!

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