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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da inutilidade inútil


Rentes de Carvalho, estribado em longa experiência e saber, com este post reforçou as dúvidas que regularmente me atacam, concernentes ao esforço e tempo que gasto com a minha escrita, que a poucos interessa, menos ainda lêem: 
"a "literatura" há muito deixou de ser o que parecia, é um produto como o detergente e, como ele, tem marca, vende-se no supermercado. Infelizmente é produto que não lava, nem eleva."
É um facto — um editor disse-me, creio que já aqui o contei: "Que é que quer, você não dorme com o Pinto da Costa nem trabalha em casa de alterne...". Um facto que me deveria obrigar a repensar a minha dedicaçao à escrita, a orientar os meus esforços noutra direcção, talvez na do lazer.
Porém, acredito eu, o destino não se escolhe, não se altera facilmente. Pelo que só me resta prosseguir afincadamente com actividades que a razão me diz serem inúteis. 
Como o estudo. Que me levou a candidatar-me a um mestrado, motivado sobretudo pelo desejo de voltar à faculdade onde tinha estudado vinte anos antes, em circunstâncias difíceis, que me não permitiram então aprofundar matérias que me seduziam. Que, volta-não-volta, me incita a terminar o doutoramento em Linguistica Computacional.
Como o karaté, que ensinei durante trinta anos sem  ganhar um tostão que fosse, e em que persisto, mau grado os protestos do corpo. 
Como a agricultura, sempre arriscada, sempre trabalhosa, quase sempre ruinosa.
Uma vida laboriosa, preenchida, bem comida, razoavelmente bebida, a que faltará algum tédio, muito fastio, a darem charme a posts choramingas como este.
E volto às actividades inúteis, que não dão pão, nem prestigio. Porque tem de ser, porque não sei viver de outra forma.

4 comentários:

José Rodrigues Dias disse...

Gostei de o ler, várias as razões.

Jose Catarino disse...

Obrigado, é gratificante saber que me leu e apreciou o post.

Sim,sim disse...

A História da Literatura apresenta-nos exemplos, com que decerto o meu amigo estará bem mais familiarizado que eu (um mero curioso que com frémito deseja ser lesto e bom de pena e a quem a necessidade profissional de litigar o vai esbulhando daquele fugaz, mas precioso tempo obrigatório para escrever), de escritores que viram as suas obras serem recebidas com certa distância e frieza por plateias arrefecidas à época, que lhes não souberam dispensar o justo valor, ao momento das respectivas edições. Eça, a título de exemplo! Um dos dois maiores vultos da sua geração (o outro era Camilo), a quem, de um modo geral, todos admiravam o estilo e a ideia revolucionária, mas que, mesmo para esses que o consideravam, não passaria de um humorista. A este respeito, basta recordar a opinião do seu amigo Oliveira Martins, homem distinto da sociedade, com profundo conhecimento literário. Hoje é pacífico. Oliveira Martins enganou-se. O restante colégio enganou-se. Enganaram-se (felizmente para nós, leitores, que herdámos a obra de Eça, do tal humorista). Ao cabo de tantos anos, é hoje considerado como o maior responsável pela refundação da língua portuguesa, dada a obsessão incessante pelo divino estilo que imprimia nos seus textos e que acabou por distingui-lo entre os demais. Não mais se escreveu do mesmo modo. Por isso, atalhando o que lhe vai no post, relato-lhe que, de certa vez, respondendo simpaticamente a uma minha solicitação para que passasse os olhos por um texto que havia escrito, transmitiu-me Pepetela qualquer coisa como o que segue: "calma, tenha calma, você é escritor, o Mundo é que ainda não sabe." Apropriando-me agora da lição de sabedoria, sou quem lhe digo, caro amigo: calma, tenha calma, virá o tempo em que o Mundo saberá que é escritor, que tem estilo e valia nas histórias que conta. Dê-se-lhe tempo. Tempo. É que o Mundo ainda precisa de se preparar, de amadurecer para o ler.

Jose Catarino disse...

Muito obrigado pelo comentário e pelas sugestões bem-humoradas. De facto, o Tempo, crivo impiedoso, joeirará a produção literária e separará o raro trigo do joio e palhas que por aí abundam. O problema é que o mesmo Tempo nos falta com tempo, e, como canta Pessoa, retomando o velho ars longa vita brevis,
"Ó céu! / Ó campo! Ó canção! A ciência / Pesa tanto e a vida é tão breve!