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terça-feira, 4 de junho de 2013

Ratos e homens*

Mais do que a incompetência, evidenciada até à exaustão, a actual geração de políticos prima pela cobardia. Intrínseca. Visceral. Basta ver, por exemplo, o comportamento ontem de Poaires Maduro ao ser insultado por um "popular". Incapaz de responder "sim, os palhaços abundam no país, como esse cavalheiro que aí grita comprova". Ou de o mandar bardamerda mais a conversa. Ou ir gritar com a puta que o pariu. Ou de resolver a questiúncula, não à bengalada, como o deputado Calisto Elói, mas, pelo menos, com uma sonora bofetada.
A altivez que os políticos fingem, querendo dar a entender que os cães ladram, a caravana passa, nada tem a ver com o acto cristão de oferecer a outra face. Para tal, falta-lhes a humildade e a coragem de, efectivamente, oferecer a face. Revela total falta de dedicação ao cargo que aceitaram e que os devia levar a, por maior que seja o medo que interiormente sintam, pensar "aqui sou mais do que eu" e, portanto, agir em conformidade, com total desprezo pelas consequências.
Escolhidos pelo aspecto e pela lábia, sabem vestir, cuidam do cabelo, da barba, das unhas. Metrossexuais. Faltam-lhes, porém, as maiores qualidades de um político, seja ele de esquerda ou de direita, homem, mulher ou outra coisa: ter convicções e tê-los no sítio. Para lutar por elas e pela dignidade do cargo que ocupa.
Ramalho Eanes, em campanha eleitoral pelo Alentejo, foi alvejado a tiro. Encolheu-se, escondeu-se no meio dos seguranças? De modo nenhum. Subiu para o tejadilho do carro tornando-se alvo perfeito, gritou: "É preciso mostrar-lhes que não temos medo!"
Mário Soares foi agredido na Marinha Grande. Era presidente da república e foi insultado por outro "popular" na Leirosa. Encolheu-se? Jamais. "Você está para aí a berrar..."
E seguiu-se uma lição de Português, incidindo sobre o significado de "berrar", e outra de educação cívica, repreendendo-lhe o comportamento.
Outros políticos, mais jovens (por exemplo, um do PS, de barbas, cujo nome me não ocorre, no Norte) têm mostrado que lhes não falta nem convicção nem determinação para enfrentarem a populaça açulada pelos caciques locais ou pelos "sindicalistas".
Mas são excepções. Que não chegam ao poleiro, empeçados precisamente pelas convicções e pelos princípios que os norteiam. Os outros, na sua maior parte, no governo ou na oposição, não passam de ratos. Não de esgoto, nem de sargeta, mas ratos finos. Por vezes, ratoneiros também. Aparentam bravura no seu habitat natural -- parlamento, comícios, reuniões partidárias, ou frente aos microfones da televisão. Mas é tudo fita, tudo postiço. Tremem de medo se umas velhotas lhes cantam  Grândola, Vila Morena.
Nunca partem a loiça, talvez com receio de estragarem as unhas. Desgraçam o país com as suas políticas, enfadam-nos com a sua lábia em que os chavões substituem as ideias, enojam-nos com a sua cobardia. Se confrontados com o passado, safam-se em beleza, explicando que se trata de "narrativas" diferentes. Porque, para eles, tudo é ficção. Excepto os proveitos pessoais, obviamente.
"Pura gelatina política", disse de um Manuel Maria Carrilho.
"De la merde dans un bas de soi" (merda numa meia de seda), disse de outro Napoleão.

(* Título de um romance de John Steinbeck que muito me marcou e cuja leitura recomendo.)

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