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quinta-feira, 27 de março de 2014

A verdade da ficção

É na ficção que ponho toda a verdade, e surpreendem-me por vezes dúvidas de leitores questionando a verosimilhança de certas situações, tão verdadeiras que lhes parecem inacreditáveis. Mas a verdade tem de ser entendida como a verdade da ficção. Veja-se, por exemplo, o excerto seguinte, extraído de Entre Cós e Alpedriz. Não há nele nada que não seja rigorosamente verdadeiro. E, no entanto, todo ele é ficção.
"Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se  e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nenhum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante...
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo."

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