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terça-feira, 17 de junho de 2014

Podia ser uma parábola

Por vezes, raramente, o meu pai contava-me algumas das terríveis provações e privações dos seus primeiros tempos de emigração, no final da década de sessenta, a labutar nessa Holanda gelada, de língua incompreensível, costumes e alimentos estranhos, apinhado com dez companheiros no quarto, a forrar cada florim, cada cêntimo e a despachá-los para Portugal para sustento da família, pagamento de dívidas, os meus estudos, o começo de uma poupança.
Um dos colegas, lisboeta, queixava-se das cartas da mulher, sempre com exigências impossíveis, como se ele nadasse em dinheiro e, em vez de dezasseis horas diárias em dois empregos, passasse a vida na farra. Afinal, onde, como, é que ela gastava tão depressa o que lhe enviava -- praticamente tudo o que ganhava? E estranhava que os colegas não se queixassem de mal idêntico: -- Não sei o que é que ela faz ao dinheiro, aquilo é chapa recebida, chapa gasta!
Veio de férias. No regresso, desiludido, lamentava-se do desafecto, do desamor, do desprezo dos filhos, crianças de tenra idade, que o mimavam constantemente com insultos raivosos. Do dinheiro enviado à custa de tanta privação, de tanto trabalho, nada. Evaporara. Mais: evaporava tão depressa que nunca chegava até ao final do mês. E soube: quando acabava e mais não havia até à próxima remessa ainda distante, a mulher reunia os filhos esfomeados em frente à fotografia do marido e ensinava-os:
-- Ladrão! Gatuno! Tu aí a esturrar tudo com as putas e nós cá a passar fome! Chulo! 

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