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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Oito máximas importantes do Karaté

Os antigos mestres viam o karaté como uma forma de estar na vida, contribuindo para o aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade. Um exemplo está na máxima que todos os praticantes conhecem, mas poucos respeitam, segundo a qual o essencial não está na vitória ou na derrota, mas no aperfeiçoamento do carácter. Máxima que sempre me faz sorrir ironicamente... Talvez por ter ouvido a mestre: "Se a prática do combate aperfeiçoasse o carácter, os pugilistas deveriam ser santos".
Pois hoje, com este tempo chuvoso que me priva do meu treino individual, deu-me para traduzir um excerto de Karaté-Do Kyohan, de Gichin Funakoshi, obra que considero a Bíblia da Arte da Mão Vazia, antes chamada Arte da Mão da China, ou, simplesmente, Mão (Té).
"Oito máximas importantes do karaté:

  1. O espírito está em harmonia com os céus e a terra.
  2. O ritmo do corpo é o do Sol e da Lua.
  3. A Lei tem em conta simultaneamente a dureza e a doçura.
  4. É preciso agir de acordo com o tempo e as mudanças.
  5. É preciso aplicar as técnicas quando se encontra a abertura.
  6. O 'Ma' necessita do recuo e do avanço, do encontro e da separação.
  7. Os olhos não devem perder a mínima mudança.
  8. As orelhas ouvem intensamente em todas as direcções."
Gichin Funakoshi, Karaté-Do Kyohan, p.248, tradução francesa de Tsutomu Ohshima, 1979.

 (Numeradas por mim para facilitar leitura e apreciação.)
1.Procuremos a harmonia, busca transversal às artes marciais japonesas, como, por exemplo, o Aikido, em vez de nos desgastarmos em guerras constantes pela afirmação pessoal rebaixando os outros, atitude típica da infância e da adolescência, mas imprópria do adulto.
2. O ritmo do corpo deve obedecer ao ying (Lua) e ao yang (Sol). Como convencer jovens karatekas de que o treino yang é bom, mas não basta, há que o enriquecer com a vertente ying?
3. A Lei não deve ser vista como o conjunto das regras de arbitragem, ou do dojo, ou do código civil, nem sequer como os Direitos Humanos, mas como algo que rege o Universo, que remete para (2). Doçura, suavidade, estão ausentes da prática até mesmo no estilo de karaté que foi buscar o nome a esta máxima: o Go ju-Ryu, à letra a escola da força e da suavidade, ou no Ju do, hoje nos antípodas do ramo de salgueiro. Dúvidas? Vejam uma arte suave, como o Tai Chi, mesmo na sua vertente mais dura, como no estilo Chen.
4. Nem podia ser de outra forma num mundo composto de mudança, nas palavras de Camões. Apenas insisto no tempo, que fará inevitavelmente de cada jovem karateka um velho. E que o deveria pensar se deve treinar destruindo o seu corpo e não raro o de outros, seguindo a mentalidade de mestres formados na Segunda Guerra Mundial, cujo ideal de vida era morrer gloriosamente aos vinte anos. Não morreram, mas transmitiram a Arte como se cada um de nós fosse um samuraizinho sem sabre. Felizmente sobreviveu nos livros o testemunho dos mestres anteriores a esse período negro da História e do Japão.
5. Não desperdiçar energia em técnicas inúteis, para espectador ver. Um golpe, uma vida, defendiam os antigos mestres, mesmo sabendo que dificilmente um único golpe é letal. E não esquecer outro ensinamento do mestre: se um objecto apresenta uma cavidade de dois centímetros cúbicos, então dois centímetros cúbicos de água são suficientes para o encher. Que é como quem diz: procurar e não desperdiçar as aberturas do inimigo, evitar ter pontos fracos.
6. Qualquer karateka com prática do kumité tem suficiente experiência da importância do recuo e do avanço no Ma, que costumamos traduzir de forma redutora como distância; pode não estar suficiente sensibilizado para a necessidade de encontro e separação, sobretudo se fizer muita competição.
7. e 8.: a atenção ao que nos rodeia é fundamental para não sermos apanhados desprevenidos pela vida. Para isso, é preciso que as ilusões não distorçam a realidade. Ou, como diz o mestre em poema seu, "Em todas as coisas, o Homem deve manter o espírito claro".
Nota final: seria um erro crasso restringir estas oito máximas à prática do karaté. Como o mestre escreveu na página 7, "A vida através do karaté-do é a própria vida, tanto pública como privada".

FOTO extraída da obra citada: o mestre exercitando-se no makiwara


3 comentários:

Paulo Oliveira disse...

Viva.
Li o seu post, no entanto a minha questão é lateral ao conteúdo.
Pratico Aikido há uns anos, que, como sabe, é uma arte marcial japonesa, criada por Morihei Ueshiba. Conheço, quase em exclusivo, praticantes de aikido, que estão convencidos de que esta arte marcial é dotada de eficácia. Apesar de gostar imenso da arte marcial, por vezes suspeito que as soluções, do ponto de vista da defesa pessoal, que apresenta não são as mais eficientes. Sei que pratica ou praticou karaté, sob a alçada de um grande Mestre, tendo obtido a graduação de Dan. Tem por isso experiência de Kumite. Qual a sua opinião acerca do Aikido e da sua eficácia?

Cumprimentos,

Jose Catarino disse...

Bom dia! Se as artes marciais (budo) tivessem por objectivo a eficácia em abstracto ou em situações particulares, como o combate desportivo a dois em ringue, seriam muito diferentes. E, como ouvi dizer a um mestre do Gojo Ryu já falecido, Leo Lipinsky, um 45 é mais eficaz do que todo o karaté.
Tomemos, por exemplo o Kendo ou o tiro com arco. Do ponto de vista da eficácia na guerra ou da luta de rua não faz sentido algum passar a vida a treinar e a aperfeiçoar as técnicas; do ponto de vista dos seus praticantes, faz todo o sentido aperfeiçoarem-se mental e fisicamente através dessas práticas que as armas de fogo e a tecnologia tornaram obsoletas.
Por outro lado, e desde sempre, a eficácia em combate de sobrevivência depende do indivíduo e não da arte que pratica. E nesse tipo de confronto, o objectivo é sair vivo e, se possível, ileso.
A título de exemplo, recordo-me da notícia da morte de um segurança de discoteca, campeão de Muai Tai, que numa briga no exterior mandou o adversário para o hospital com o maxilar quebrado — mas morreu de facada recebida no confronto. Ganhou o combate por KO mas morreu. E não têm conto os casos de indivíduos espancados por seguranças que regressam com armas de fogo a tirar desforra...
Termino recordando a máxima segundo a qual a perfeição é, para o que quer vencer, não lutar. Mas, se colocado em situação em que o não pode evitar, por ter a sua vida (ou a de outros) ameaçada, serão decisivas as capacidades mentais e físicas adquiridas pela prática de uma arte marcial (budo), não importa muito qual.
Abraço.

Paulo Oliveira disse...

Compreendo o ponto, e desde já ressalvo que sou pai de família e gosto bastante de viver a minha vida doméstica, armado de chinelas e de robe, enquanto observo os meus filhos a crescer. Quero com isto dizer que não me identifico com o mundo da noite, nem com o dos desportos de combate, não obstante o respeito que este último merece, quando praticado com honestidade. Agradeço a inteligente reaposta, que não se limitou à contabilidade analítica, olhando e fazendo-a olhar para as artes marciais como um todo, um caminho a seguir, estando a eficácia precisamente no trilho que diariamente traçamos nos treinos. A eficácia está, por isso, na interpretação pessoal do Budo. Abraco