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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Lisboa, anos setenta

"Lisboa parece adormecida, como se a chuva a tivesse anoitecido prematuramente, há-de chegar o tempo em que nunca dorme, por agora apenas no Bairro Alto, no Cais Sodré, no Intendente, há arremedos de diversão nocturna, se se pode chamar diversão a arruaças protagonizadas por marinheiros bêbedos da esquadra americana que mal fundearam no Tejo logo correram às putas, outros, de gostos diferentes, fingindo que o fazem por brincadeira, seguem travesti mais produzido que corista do Parque Mayer, onde os burgueses assistem pacatos a revista com umas piadas políticas benevolamente toleradas pelo regime, e o travesti vai ser famoso na sua velhice, quando, mais plastificado que estômago de tartaruga marinha, fizer as capas das revistas de cabeleireira, por viela escura dois marines seguem o R, dos Marinheiros alcunhado, poeta famoso e paneleiro lendário, lá mais para a noite estalarão as tais rixas, pancadaria rija entre os bravos chulos lusos, quais cavaleiros andantes a baterem-se por suas damas, e estes americanos amaricados — que dentro de poucas semanas receberão baptismo de fogo no delta do Mekong e em feroz batalha provarão, mais uma vez, que para a guerra não há como os panascas, como é sobejamente sabido desde os duros espartanos, o grande Filipe da Macedónia, o seu filho Alexandre, magno conquistador e maior pederasta, Júlio, César Augusto, o homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens, os famosos generais ingleses…

Afora putedo, paneleiros e revista no Parque Mayer, a vida nocturna da cidade resume-se a convívio pacato de oposicionistas nos seus cafés, na cervejaria Trindade, também os estudantes se encontram a pretexto do estudo nos cafés, alguns estão no Apolo 70 a ver A Semente do Diabo, e pouco mais, a capital do Império é serena, vive tranquila entre portas, culpa das televisões compradas a prestações que fixam as gentes nos seus lares, eléctricos e autocarros circulam quase vazios, o metro fechou antes da meia-noite, e a cidade repousa já, das Avenidas Novas até às barracas de Chelas, onde chega de táxi o Zé, acompanha-o outro Zé, mas tratemo-los pelos pseudónimos revolucionários, Pedro e Gustavo, adoptados a partir das iniciais do Comité de Luta Anti Colonial do Instituto Comercial, o "Guerra do Povo"."



Inédito meu, de romance em construção.


3 comentários:

Anónimo disse...

Não precisa de publicar o comentário, até prefiro que o não faça. Não nos conhecemos sequer. Daí não assinar. E é apenas um ponto de vista, sem qualquer intenção crítica negativa. Mas não aprecio a falta dos artigos nas frases seguintes: "... seguem travesti mais produzido..." e "... assistem pacatos a revista com umas piadas...".

É uma marca de estilo recorrente e muito visível nestes seus escritos: aparece quase sempre. Mas soa-me mal e soa-me de todas as vezes que a leio, o que a torna ruidosa. Pode ser defeito meu, mas na minha construção da leitura prefiro a concretização mesmo indefinida de um artigo a esse vago que gera de modo propositado.

Jose Catarino disse...

Muito obrigado! Vou pensar nisso. E ouvir outras opiniões.

Jose Catarino disse...

Ah, publiquei o comentário para lhe poder responder a agradecer. Aliás, só não publico spam.