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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O paraíso

Eu conheci o paraíso: foi o meu pai que o criou e ficava nas Matas, pequena propriedade separada da aldeia por vinhedos e brava mata -- a selva onde eu era o Tarzan dos Macacos.
Desce-se por íngreme encosta, depois, nuns vinte metros de comprimento por dez de largo, ficava o nosso jardim, onde os mimos da horta cresciam opulentos por entre pessegueiros e algumas laranjeiras, ao centro poço de velho tijolo burro, pia e picota. Nos dias quentes, o ar perfumava-se com odor a flores e a mel, e esvoaçavam obreiras azafamadas de flor em flor, carregando pólen para dois cortiços e uma colmeia, assentes em púcaros de barro, dos da resina, contendo óleo queimado a defender as abelhas de ataque de inimigos por terra. Em volta, para regalo de tão diligentes trabalhadoras, dispusera o meu pai erva-cidreira, ao lado da "pocica", de onde corria permanentemente água fresca, saborosa, que eu ao fim das tardes de Verão despejava com cabaço nas regadeiras, na esperança de que o esforço que fazia crescer as novidades tornasse também poderosos os músculos dos meus braços franzinos.
Por companhia, livros e a minha imaginação, então sem limites. Banho na estiagem, não de mar, mas na água da pia, tirada à picota. Por guloseimas, pêssegos, primeiro Temporão de Alcobaça, lá para o fim do Verão Jota Galo (J. H. Hale, soube muito mais tarde). Dias preenchidos, entremeando a leitura com aventuras pelos matagais das redondezas, embrenhado por giestas e urzes, a rastejar sob tojos espinhosos, para fugir aos leões de África ou escapar a canibais da Polinésia. Por vezes, empoleirava-me no alto de pinheiros, a que trepava com a agilidade de macaco, e lá, a salvo das jibóias e crocodilos, inventava armadilhas para capturar os tigres, ideava truques para domesticar a pantera, concebia estratagemas para cavalgar o avestruz.
Passaram os anos. Deixei de enfrentar feras na selva, de ludibriar antropófagos nas ilhas do Pacífico. Mas a paixão por aquela nesga de terra permaneceu. O meu pai fez-me uma cabana na encosta e lá passava os dias nas férias grandes, na companhia de outros livros, de outros autores. No Inverno, com a fé que sempre tive nas virtudes da vitamina C, carregava de valentemente encosta acima sacos de serapilheira cheios de laranjas da Baía, e espremia-as em jarros de sumo que bebia diariamente. 
Podia ter passado assim a vida; mas é destino humano ser expulso do paraíso, fique ele no Jardim do Éden ou nas Matas. E um paraíso não sobrevive sem o seu Criador. Hoje sofro mais com ida às Matas do que ao passar pelo cemitério onde estão os meus país. Entregues a si mesmas, estão irreconhecíveis, mortos os pessegueiros, ressequidas as laranjeiras abandonadas como velhos no lar, eucaliptos e pinheiros taparam a luz, secaram a terra, onde já só crescem fetos, urtigas e silvas. Do paraíso de outrora restam raras fotos já amarelecidas, e as minhas memórias distorcidas pelo tempo.

Lá, o meu pai e eu fomos felizes, cada qual à sua maneira.


FOTOS
1. Com o meu irmão, a experimentar tenda de campismo feita pela minha mãe; com essa tenda e nesse Verão percorri o Algarve à boleia.
2. O meu primo Fernando, hoje a fazer pela vida em Kibala, Angola, em pose sentado na pia.
3. Eu de mão estendida para, assim assegurou o fotógrafo, o nosso primo António, o Fernando, na encosta parecer estar de pé sobre a minha mão. 

2 comentários:

Beatriz disse...

e e que a foto resultou! uma levitação de mão beijada!

tendas de campismo..tive uma, que só tinha os lados, a frente e as trazeiras..não tinha chão!!

e foi-nos oferecida!!e nós felizes:um mês europa fora, tenda miserável..cobertores..e nos parques de campismo ofereciam-nos comida..deviam pensar que éramos errantes! Andavamos os quatro na Universidade..mas parece-me que ninguém acreditava nessa história!!!
e ainda assistimos a um concerto com a Joan Baez em Copenhaguen!!

Jose Catarino disse...

Pois naquela tenda até fui entrevistado para um jornal que procurava campistas autênticos e não os encontrava. Mais autêntico não haveria, com tenda de pano cru feita costurada pela minha mãe, fogareiro a petróleo, e a viajar à boleia. Bons tempos.