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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sexta-feira da Paixão

Talvez o Senhor tenha morrido de velhice
Esther assustou-se com a heresia da irmã: Não digas nunca essas coisas à frente do pai!
Porquê? Tudo morre. E o Senhor já era tão velho
Também eu protestei. E, mesmo se tivesse morrido, havia o Filho.
Pois, mas é tão bonzinho que O mataram na cruz. Como poderia pôr fim aos desmandos dos homens? Sempre pronto a perdoar o mal aos inimigos! Vede o Pai! Olho por olho, dente por dente. Cá se fazem, cá se pagam. Ou o homem se portava bem, ou o castigava. E hoje, com tanta imoralidade, tanta depravação, tanto mal, não intervém, não lança sobre nós nem as águas do Dilúvio, nem o fogo de Sodoma e Gomorra.
Concluiu tristemente: Deus está morto. Talvez até nunca tenha nascido, talvez tenha sido um sonho nosso, alguém em quem depositámos a esperança de que zelasse pela ordem do Mundo. E o Mundo nunca teve ordem. É sabudo que as coisas pioram sempre, as crianças envelhecem, as mais fortes construções humanas esboroam-se em pó, à civilização segue-se inevitavelmente a barbárieO nosso povo foi feliz no tempo do Pai Abraaão? Pois veio o cativeiro da Babilónia. Foi feliz com o rei David e seu filho Salomão? E veio o cativeiro no Egipto, a dominação romana, a diáspora. Há séculos que amargamos, que expiamos culpas que não são nossas, e o pior, tenho a certeza, está ainda para vir!
Eu queria pôr termo àquela conversa, não por me ofender, que em crianças todos dizemos inocentes disparates e blasfémias, como essa de que Deus estava morto ou talvez nunca tivesse nascido, e além disso os judeus têm a sua própria religião, os seus costumes e autoridades, mas por me desagradar ouvir aquela jovenzita franzina a discretear sobre a Divindade como se fora doutor da Igreja ou tivesse longa experiência de vida com honesto estudo misturada.
Nunca sonhas com coisas boas? e, maroto, atrevi-me: Com rapazes?


Abanou tristemente a cabeça. Vim ao Mundo para sofrer. Como o teu rabi Jeschoua Natzarieh: para expiar os pecados dos homens. Como Ele, sofro o mal que houve, o que há, mas sobretudo o que haverá.

Inédito meu. A acção situa-se no séc. XIV, quando os verbos terminados em -er faziam o particípio passado em -udo, e.g., saber, sabudo.

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