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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Como um rio

Seduz-me a fluidez e a plasticidade da água que corre livre de empecilhos. Assim queria a minha escrita: clara, cantante, envolvente, a fervilhar com a perpétua guerra entre vida e morte. À superfície, a tranquilidade ilusória, quebrada por um ou outro salto de peixe, ou cortada por pacato barco a remos; nos remansos e fundões, o refulgir dos cardumes, à meia-água os barbos de longos bigodes, de tocaia, nos limos ondulantes, na sombra dos salgueiros, nas ervas da margem, a enguia voraz, o achigã matador, a delicada víbora, a sanguessuga repugnante.

Este meu fascínio pela água deve ter origem semita, talvez judaica, a ver pelos apelidos de meu pai (Silva, Catarino), a que não serão alheias as origens da minha aldeia natal, povoada por cristãos-novos. Muito misturada com sangue moçárabe, resquício da longa colonização muçulmana da região, a que pôs cobro D. Afonso Henriques, ao tomar Alpedriz em 1143.

Assim sou. Uma Palestina, sempre em guerra comigo mesmo, sempre descontente com o lodo que desajeitadamente levanto do leito e turva as águas que quero claras, para nelas reflectir o Grande Rio que passa inexoravelmente e não volta jamais.

4 comentários:

Cristina Torrão disse...

É raro encontrar referências a moçárabes. E haverá muito sangue desse, nessa região, sem dúvida!

Jose Catarino disse...

Eu serei meio judeu, meio moçárabe. No feitio, na fisionomia. Ao ponto de um japonês perguntar se eu era turco...

Anónimo disse...

Ninguém duvida da misturada, como da dos portugueses todos - ou quase.

Mas não se fie nessa da existência dos apelidos cristãos-novos, mera ficção - tal como a das árvores, dos animais ou religiosos.

Catarino (como Cipriano) são nomes próprios que passaram a apelidos (em forma inalterada) quando quase toda a gente começou a usar apelidos.

Vêm na mesma linha de Duartes, Afonsos, Augustos, Crispins, Helenos, Aparícios, Mateuses, Bernardos, Gaspares, Vicentes, Paulos, Dinises, Franciscos, Martinhos e, no fundo passaram, sem alterações, à descendência. São nomes familiares do grupo de outros apelidos patronímicos, como Henrique(s), e, como se percebe, indicam filiação. Como sabe, Henriques quer dizer filho de Henrique. Veja-se o Rei Afonso Henriques. Sanches, de Sancho, Gonçalves de Gonçalo.

E por aí fora, à custa da evolução do caso genitivo do latim. Fernandici, filho de Fernandus (ou pertencente a Fernandus) passou a Fernandizi e de seguida algo do estilo Fernandiz > Fernandez > Fernandes.


Se recuar na sua árvore genealógica, de certeza que encontra um avoengo com o nome próprio Catarino (ou Catarina primordial) que talvez pelo hábito local acabou por ver transmitido esse nome aos descendentes à laia de apelido - ou de alcunha quase vocativa: Lá vai o João, filho do Catarino > o João do Catarino > o João Catarino.

Muitos tinham inspiração religiosa, por se nascer no dia do Santo. Veja-se como Augusto Epifânio da Silva Dias - professor dos oitocentistas Liceu de Lisboa e Curso Geral de Letras e da republicana Faculdade de Letras da UL - foi buscar o segundo nome ao dia em que nasceu. Ou o rei Sebastião.

De inspiração religiosa - e não simplesmente cristã-nova, gente que queria era que não dessem por eles - são tantos e tantos nomes segundos passados a apelidos demonstrando a piedade dos progenitores ou de padrinhos: Veja-se Quaresma, Páscoa, Pascoal, Reis (do dia de Reis), Anjos, Jesus, Santos (do dia de todos os Santos), Ramos (dia de Ramos), Nazaré, Deus, Bento, Baptista.


Jose Catarino disse...

Caro anónimo, tem toda a razão: os apelidos não são suficientes, só por si, para distinguir os eventuais descendentes de judeus e da moirama dos dos cristãos velhos. Por isso mesmo acrescentei outras evidências que me levam a supor ter tão humildes antepassados, sendo que a mais importante é seguramente o facto de eu ser uma autêntica Palestina em contínua guerra comigo mesmo.
Muito obrigado pelos esclarecimentos.