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domingo, 20 de junho de 2010

A arte de morrer*

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades: Camões morreu sozinho e ignorado, Pessoa teve quatro ou cinco acompanhantes no funeral e umas linhas no Diário de Notícias, Saramago tem honras à altura de jogador de futebol falecido no campo. E mais me espanta tanta gente sempre pronta a comentar para as câmaras de televisão, todos com opinião sobre o escritor -- afinal, que livros dele terão lido? Aposto que tantos quantos leram de Camões ou de Pessoa.
Neste país que sempre ignorou escritores e poetas (e artistas, de um modo geral), esta histeria colectiva face à morte esperada de um grande escritor escandaliza-me. Assisti às notícias da morte de outros igualmente grandes, sem espectáculo, sem dramatismo televisivo: Cardoso Pires, Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Sophia, Eugénio de Andrade...
Saramago, que dominou a arte do marketing como poucos e não teve pudor em a usar em proveito próprio, terá preparado (ou, pelo menos, consentido) um final em apoteose, capaz de o consagrar como superstar das letras no imaginário popular. Porém, dentro de dias, o futebol será outro, e apenas restarão os seus livros, uns geniais, outros desinteressantes, não raro, sobretudo nos últimos anos, mais do mesmo.


(*A arte de morrer longe: título do último livro de Mário de Carvalho)

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