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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Morgadinha dos Canaviais revisitada


Voltei à Morgadinha dos Canaviais, quarenta e tantos anos depois do fascínio da primeira leitura. Moveu-me, não a nostalgia das idealizações campestres, mas o estudo do viver nos finais da primeira metade do séc. XIX, trabalho de pesquisa para romance que estou a escrever, resultado da minha obcecação pelo mito da Maria da Fonte, de que já aqui dei conta.
A Morgadinha dos Canaviais ainda tem muito para oferecer aos leitores de hoje, mau grado o seu início fastidioso, pedante até. A pedir, portanto, leitura em diagonal, mormente quando surge a Tia Doroteia e a sua criada, ou dona Vitória e os seus conflitos com a criadagem. Notáveis os conflitos interiores de algumas das personagens, a lembrar Dostoievski, outro mestre no género. Primorosa a denúncia do caciquismo, da corrupção política e das fraudes eleitorais, a dissecação das artimanhas com que os demagogos manipulavam então o povo — como hoje, mutatis mutandis.
Nas personagens, apreciei sobretudo o político nacional, encarnado no Conselheiro, e os caciques locais — Joãozinho das Perdizes, o Brasileiro Seabra, o Pertunhas, o Torcato, o missionário. Comoveu-me o Cancela, o homem que se levanta contra a tirania da religião, e sofre a morte da filha adolescente. Bem concebido o Zé Pereira, tocador de zabumba, que afoga no vinho os desgostos que lhe dá a mulher, beata. E pressenti em Henrique de Souselas grandes parecenças com o Gonçalo da Ilustre Casa de Ramires, até com o protagonista de A Cidade e as Serras.
Recomendo para estes longos serões de Novembro.

5 comentários:

João Andrade disse...

Caro amigo,

Ainda que Júlio Diniz não seja um verdadeiro estilista da língua portuguesa, a ponto de ombrear tanto com Eça como com Camilo, é mister o efeito viciante que semeia nos olhos de quem o lê. Curioso é que, à actualidade, também vá interpolando entre os dois autores por mim referidos, a par de outros como Garrett, Herculano ou Malheiro Dias. Em definitvo, são quem me vão oleando na arte da pena.

Sofia disse...

Um dia destes tenho de tentar voltar a ler, depois daquela tentativa falhada há muitos anos...

Jose Catarino disse...

Dou por mim a pôr de lado, entediado logo às primeiras linhas, a maior parte da novidade, sobretudo da mais badalada, para voltar com prazer às velhas leituras.

João Andrade disse...

Evitando delatar, ou melhor, nomear quem verdadeiramente me entedia o espírito, nos raros períodos da semana em que, a intermitências, lá me vou escapulindo para um ou outro recanto desta ou daquela livraria, há um autor que o consegue de modo especial. Um que recentemente rumou até à Coreia do Norte e cujo título da sua obra em muito se parece com os de um outro romancista, que, durante o dia se encerra na Torre do Tombo, diligenciando em inúteis e superfluas pesquisas, e à noite, pelas 20h00, assume o lugar de pivot no único canal público português. Os escritos de ambos empobrecem tanto o mundo das letras como a nossa língua.

Jose Catarino disse...

Autores muito apreciados, embora por públicos diferentes, suponho. E eu que não consegui ler um único livro deles, embora tenha vários em casa. Nem passei da primeira página. Pior fiquei, que comprei os livros e não os li... nem tenciono ler por maior que venha a ser o tédio.