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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Quando o 1 de Maio era vermelho

"Era um tempo louco. A revolução pegou-o logo à chegada a Lisboa, fazendo-o esquecer depressa as ideias moderadas que tão radicais lhe tinham parecido em Leiria. Agora tudo o que não fosse José Estaline, o glorioso filho da revolução soviética, ou Mao, o grande timoneiro e ilustre continuador da obra de Estaline, que, no entanto, o não tinha compreendido nem à especificidade da revolução chinesa, era revisionismo e ideias pequeno-burguesas. Foi o tempo em que leu o Anti-Dühring, a Crítica da Economia Política, Os Princípios Elementares de Filosofia, até tentou O Capital, mas depressa desistiu, desculpando-se com a impreparação política e técnica. Viu a Luz no Materialismo Dialético, não aceitando que alguém, de boa-fé, pudesse rejeitar tanta clareza. Mas a verdade, a verdade suprema, estava no Luta Popular, que passava a alguns dos colegas, e meses mais tarde distribuía à noite nos bairros populares, Madragoa, Chelas, mesmo Alvalade, quando o seu controleiro decidiu que havia populares nesse bairro, até então considerado pequeno-burguês.
De dia, agarrado à maquineta, o copiador artesanal que fabricara seguindo um modelo que remontava, pelo menos, ao tempo dos bolcheviques — uma moldura de madeira com rede fina de cortinado pregada para prender o estêncil com pioneses, um rolo de pintura e tinta para duplicador, sempre comprada a medo — reproduzia panfletos; à noite, com um dos camaradas da sua célula, distribuía-os pelas caixas de correio dos prédios, deixava-os em pequenos montes, por aqui e por ali, debaixo de carros, com uma pedrinha em cima para que o vento os não levantasse enquanto estivessem por perto; por onde passavam, deixavam 'selos', etiquetas autocolantes com slogans, nos postes das paragens dos autocarros e, mais pela calada da noite, pintavam paredes. Por vezes, ouvindo-os entrar sorrateiramente no hall dos prédios, os roncos paravam e ouvia-se uma voz desconfiada e ameaçadora: — Quem está aí? Sossegavam o 'popular': — Guarda-Nocturno! Uma vez ou outra foram encurralados pela polícia. Então, embora quase morrendo de medo, dirigiam-se-lhes afoitos e pediam uma informação qualquer que fizesse sentido: onde parava o 9, qual o caminho para... Os guardas, habituados a ver fugir os meliantes e vendo o aspecto normal dos rapazes, ajudavam-nos, solícitos, aproveitando para perguntar se tinham visto algo de suspeito. — Sim, sr. guarda, uns cabeludos ali mais atrás, que fugiram quando nos avistaram...
Lisboa amanhecia colorida pelos sinais da Revolução, nas paragens dos autocarros e dos eléctricos, nas escolas e faculdades, nas paredes das fábricas, até nas sanitárias públicas. Nos autocarros da madrugada, quando regressavam do 'trabalho', ouviam os desabafos de polícias desesperados, após outra noite de vigilância e de perseguições fracassadas: — Esses filhas da puta dos pinta-paredes dão-me mais trabalho que os meus filhos. Trocavam olhares cúmplices: sem que o suspeitasse, talvez o seu filho fosse também um dos tais."
Do lacrau e da sua picada

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