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domingo, 5 de setembro de 2010

A grande cabrada

Semanas atrás foi notícia a introdução nas nossas matas de 150 mil cabras (não se fazia referência a bodes, mas acredito que os visionários do projecto saibam distinguir elas de eles). As cabras limparão as florestas e -- garanto que o ouvi repetir -- cada uma será um bombeiro, o que me levou a pensar que não deviam ter esquecido os bodes, mais eficientes no uso da agulheta.
Sempre do contra, ocorreram-me numerosas objecções, a primeira das quais foi julgar que os mentores do projecto não percebem lá muito de cabras. Uma cabra é sempre uma cabra, filha de uma cabra, cheira como uma cabra e porta-se como uma cabra. Cada uma faz o que lhe apetece e não haverá maneira de a convencerem a comer os rebentos das silvas havendo plantas mais saborosas e tenrinhas em quintais, jardins, pomares, searas, milharais, vinhas. E tem 24 horas por dia para o fazer porque, ao contrário dos cabreiros (onde os irão desencantar?), a cabra não tem horário de trabalho. 
Mas, reconhecendo a minha incompetência na matéria, socorro-me de Mestre Trindade Coelho, sem esperança embora de que as suas palavras sirvam de alerta aos autores desta ideia caprina:

"Era no rebanho a que dava mais que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro."
Trindade Coelho, "Mãe, Os Meus Amores (trazido da Grande Oferta de Livros)

E era só uma, a Ruça. Acrescentem-se 149.999, e teremos uma pálida ideia do que aí virá.

2 comentários:

Reinaldo Amarante disse...

Não sei onde lançaram as cabras, mas aposto que os restaurantes das redondezas e não só, passaram a incluir a tradicional "Chanfana" nas suas listas.
E à falta da caça genuína, os caçadores também devem agradecer o reforço...

José Cipriano Catarino disse...

Creio que a ideia ainda não avançou. É uma daquelas que requer uma logística tremenda ou depressa o povo enjoará a chanfana. O mais certo é gastarem-se rios de dinheiro, alguns aproveitarem, e para o ano os bombeiros terem de salvar dos fogos as cabras que restarem. Admitindo que os promotores são pessoas bem intencionadas, espanto-me com tanta ingenuidade: 150 mil cabras à solta. E as doenças, algumas endémicas? E os estragos que causarão, cabras mas não parvas a ponto de trocarem mimosos rebentos de plantas de cultivo por espinhos e cardos? E os pastores, onde os irão encontrar, décadas a encorajar o povo a abandonar os campos, agora fechando-lhe as escolas para os filhos, os hospitais, as maternidades? Enfim, talvez seja como o TGV, o aeroporto, etc.