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segunda-feira, 25 de março de 2013

Das katas e do karaté


O karaté foi concebido como uma arte de vida. Explico: não tem por fim a vitória ou a derrota, nem taças ou medalhas, mas a educação dos praticantes, visando, pelo rigor, pelo esforço e pela disciplina que a sua prática exige, veicular e ajudar a seguir um rumo na vida orientado pela justiça. Tal como nas diversas religiões, uma coisa são os ideais propalados, outra a vivência dos adeptos. Os karatecas não são santos, como os cristãos também o não são.
Os ideais pretendem nortear, encaminhar o homem. O que cada qual faz com eles é outro problema, aqui e agora irrelevante. Acrescento ainda que palavras como “arte, vida, justiça, vitória, derrota”, etc., devem ser vistas como termos com valor iniciático, bem diferente do sentido que comummente lhes atribuímos; assim, justiça, por exemplo, é indissociável do Ying e Yang…
Ora a formação do karateka passa por “moldes”, em japonês kata, termo que designa um conjunto de práticas ritualizadas, executadas de forma fixa, visando a perfeição. Nesta perspectiva, religiosa, reconheço, não importa se a kata executada se reporta à cerimónia do chá ou a práticas de origem guerreira, normalmente designadas por artes marciais. Pouco importa qual é a kata favorita (tokui-gata), uma vez que não é a kata adoptada que forma o executante, mas este que, supostamente, evoluirá com a sua prática. Em linguagem popular, todos os caminhos vão dar a Roma. O que se busca, quase sempre inconscientemente, são os frutos da perseverança, da tenacidade, da aprendizagem, colhidos enquanto penosamente se percorre o caminho (Via em Latim, Do em Japonês) da aprendizagem e da vida.
Executar katas (que, em casos extremos, como o ritsu zen, não têm um único movimento) não deve ser visto apenas como um combate contra inimigos imaginários, espécie de shadowboxing, ou mero exercício físico e mental. É mais, perdoe-se-me a blasfémia, oração e missa. Porque os karatecas executam-nas diariamente com fervor, convicção – e ausência do sentido do ridículo.


(Neste filme, Teki Shodan. Com alguma dificuldade em levantar as pernas, que o menisco ainda não está a 100%) 

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