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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

1972 (outro fragmento)

"Não muito longe, na Rua do Salitre, o sr. Fragoso arruma a secretária para sair do emprego, a mulher da limpeza começa a faxina, no Instituto Comercial, ao Camões, a professora de Cálculo Financeiro inicia a última aula da tarde, a que o Zé vai faltar, não por causa do engarrafamento na Baixa, pois anda a pé e poupa os quinze tostões do bilhete de autocarro, mas por ser um dos agitadores, ele que participa na sua primeira manifestação num misto de euforia e de medo. 
Ei-lo a atirar pedra a montra de banco, quem diria que este rapaz, provinciano e pacato, se envolveria em actividade subversiva — terrorista! dirá amanhã o Século, se a censura permitir que publique a notícia que noite alta redigirá o jornalista Ribeiro Esteves, a braços com a dificuldade de fingir condenar o sucedido para enganar o censor, deixando embora nas entrelinhas pistas para os oposicionistas saberem que o regime é contestado nas ruas. Entra o revisor tipográfico, também do reviralho, 
— Já terminou o artigo? 
— Ainda não, precisa de uns retoques, a ver se passa por entre as malhas.
— Duvido. A censura não vai deixar publicar nada sobre a manifestação dos estudantes. O que querem eles, afinal, não cheguei a perceber?
— E eu sei lá? Mas alegra-me que chateiem o regime.
E ficam a discutir por momentos, o revisor tem razão, pouco importa fingir, o  lacaio do lápis azul não permitirá que se noticie que um punhado de estudantes desceu a Almirante Reis, paralisou o trânsito, estilhaçou montra de banco, gritou palavras de ordem que nada dizem aos que as escutam retidos no trânsito a ver a polícia de choque desancar pobres transeuntes,os quais, fiados no proverbial  "quem não deve não teme" se deixam apanhar na confusão —  voltemos ao escritório da Andantino, onde, por causa do tumulto e engarrafamentos, chega atrasado o sr. Antunes, sócio gerente, vem acompanhar o turno da tarde, que patrão fora, dia santo na loja, despede-se do sr. Fragoso com aperto de mão, a dona Lourdes, a faxineira, ouve-o contar que para os lados dos Restauradores há confusão, a polícia de choque dá tareia em estudantes que se revoltaram, e mais em quem apanha pela frente, aperta-se-lhe o coração a medo que o filho estremado se tenha metido nessas desordens, raro é o dia em que lhe não suplica que se afaste dessa malta, cada qual deve acamaradar com seu igual, e nada de política, se o filho vai preso não tem como pagar a advogado, nem como o tirar da cadeia, e ele fica com a vida estragada, será prontamente incorporado — como soldado raso, destruindo o seu sonho de o ver oficial, será talvez mobilizado como castigo para a mortífera Guiné, de onde, se regressar vivo e inteiro, virá marcado com o ferrete de comunista, que para sempre o impedirá de ter bom emprego no funcionalismo público, e o  condenará a vida de escravatura, como a do pai, que Deus haja, guarda-freios da Carris, como a dela, que apenas sonha dar melhor futuro ao filho, assim ele não perca a cabeça e estrague a sua vida."
JCC, inédito, de romance em curso. Porque me apetece.

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