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quarta-feira, 14 de maio de 2014

No mar do olvido

É no fel que tudo fenece, escreveu o meu trovador pouco antes de morrer, conforme testemunha o primo e narrador:
"Procurou-me o senhor Fernão Lopes, escrivão dos livros de el-rei e de seu filho, o príncipe D. Duarte, que ambiciona escrever obra para que não caiam no esquecimento os feitos grandiosos dos antigos reis, sobretudo os de nosso senhor D. João, a cujo lado tive a honra de por várias vezes lutar. Queria o senhor Fernão Lopes saber pormenores, confirmar histórias, confrontar nomes com acontecimentos para, no seu dizer, escrever a verdade, sem outra mistura, nem fingidos louvores. Desejo que o consiga, embora tenha minhas dúvidas, que me ensinou a experiência que há tantas verdades quantos os protagonistas das histórias, e não poucas vezes maior é a verdade daqueles que as não viveram do que os dos homens e mulheres nelas envolvidos. As nossas conversas fizeram-me recuar ao passado, avivar memórias, reviver acontecimentos como se o rio do Tempo corresse agora em sentido contrário, e dei por mim a pôr, também eu, por escrito as minhas recordações, mau grado o mérito duvidoso que haver possam: é antes maneira de pesar minha vida.
Porém, nada do que se escreve é o que aconteceu: faltam as cores, os odores, os ruídos, mais do que tudo, a juventude sumida nesse rio que se aproxima da foz para se diluir no mar do olvido, águas indistintas onde tudo o que antes correu se dissolve inexoravelmente… Ou, como na balada de meu primo, cantada a bordo da nau que nos levou até Ceuta, “é no fel que tudo fenece.”
(...)
Longe, longe, vão os sonhos
De minha mocidade
Que a maior idade
Torna medonhos
Assim nos tornamos enfadonhos
Aos ouvidos de nossos senhores
Esquecidas as mercês prometidas
Ninguém nada nos agradece

É no fel que tudo fenece…"
(Inédito meu)

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