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domingo, 4 de maio de 2014

Eucaristia

"... eu ouvia o Latim do padre, confessava-me hipocritamente, de tempos a tempos recebia em comunhão o corpo de Senhor — e mentalmente sorria ao engoli-Lo desenxabido sem mastigar, reduzido a farinha sem fermento: ali estava a prova do que Sara amiúde me dizia: Deus está morto, ou foi um sonho nosso, para termos quem nos amparasse, protegesse, valesse nas nossas necessidades; porém estamos sozinhos no Mundo, não imagino porquê nem para quê, e nem sequer o Tempo podemos fazer correr ao contrário, para que eu emende cada um dos meus erros e desvarios e possa um dia desaparecer quente, aconchegado, feliz, de volta ao útero de minha mãe."
Inédito meu

NOTA: este texto, reproduzido também no Facebook, indignou uma pessoa que me merece muita consideração. Foi esta a resposta que dei ao seu comentário:

É preciso não confundir o autor com (uma das) personagens. E ter presente que o excerto está necessariamente descontextualizado. Em comum com D. Rodrigo, tenho uma inquietação existencial que me leva a interrogar-me sobre aquilo que considero mais importante: Deus existe? Existiu? Ou será a projecção dos nossos desejos, das nossas expectativas? Rodrigo Semedo, desesperado por ter perdido a mulher e a filha, perde também a fé ao ver os cristãos perseguirem os judeus, a quem acusam de responsáveis pela peste. Inverosímil? Chocante? Blasfemo? Talvez. Mas a literatura, que persigo, é uma inquietação e não um mundo de certezas. E eu vejo-me como um médium, rodeado de espíritos, alguns malignos, que me possuem e me obrigam a dar-lhes voz. 
(Boa desresponsabilização. Quase como a dos gregos dos poemas homéricos, que diziam que um deus tinha tomado posse do seu corpo.)

2 comentários:

João Andrade disse...

Na resposta dada ao leitor/leitora que se sentiu profundamente indignada com o texto sobre a deglutição da hóstia, apenas um reparo. Deus não existe ou existiu.Para quem n´Ele acredita, Deus simplesmente é. Uma entidade superior que se não rege por qualquer unidade de medida, sendo injusto atribuir-se-lhe um tempo ou um cenário cronometrado, o que equivalerá a atribuir-lhe a característica da definitividade, aquela que, por sua vez, esteve, está e estará intimamente ligada à condição humana.
De resto, a reacção dessa pessoa sua conhecida, apesar de não surpreender, é reveladora de um universo que bem conheço e que é o da Igreja ditadora. Não admite um apontamento, uma crítica, zanga-se com quem, de entre aqueles que pertencem ao círculo, não a acompanha em ideias, ainda que essas mesmas ideias não passem disso. De ideias. Presta-se ao ridículo, muitas vezes. Por exemplo, quando Saramago lançou Caim, - apesar de Saramago ser um provocador e um ignorante no que toca à fé - necessário foi que Carreira das Neves com ele se debatesse em televisão,com o propósito de limpar a suposta honra manchada da instituição. Teria a Igreja a esperança de que o padre conseguisse exorcizar a alma perdida de Lanzarote, expulsando-lhe os diabos que o possuíam? Outro exemplo, o filme do Código de Da Vinci. A celeuma que foi em volta de um quadro supostamente pintado cerca de 1500 depois de Cristo (mais coisa menos coisa). Parece que a Igreja se belisca com a arte, quando esta não a retrata da forma bíblica como entende que deveria ser.
O julgamento de qualquer obra pertence à mente livre de quem lê,ouve vê ou respira, sendo por isso irrelevantes as vociferações da Igreja.

Jose Catarino disse...

Caro João Andrade,
Muito apreciei o seu comentário, embora não partilhe todas as suas ideias. Mas apreciei porque tem ideias, o que em matéria religiosa me parece raro, e expõe-nas com clareza lapidar. O outro leitor viu no meu texto uma forma de oportunismo, coisa de querer sucesso com ataques à religião. Ora para mim escrever é uma forma de catarse. De confissão, ao abrigo não no segredo sacerdotal, mas da ficção. O meu universo é o da dúvida, não o da certeza.
Detestei Caim, que me pareceu um mau pastiche, sem imaginação, indigno de um escritor como Saramago. Por ser mau, mal escrito, e não pelas provocações religiosas.
Por último, o que refere primeiro: o conceito de Deus. Responderei republicando um excerto sobre tal assunto.
Muito obrigado pela visita e pelo comentário.