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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Uma cantiga de amigo serôdia

Lembram-se da poesia trovadoresca, que floresceu de finais do séc. XII a meados do séc. XIV? A mim, sempre me fascinou. E um dia aconteceu que uma das minhas personagens fosse trovador e escrevesse a seguinte cantiga de amigo, paralelística, em dísticos monórrimos, alternando a rima em /i/ com a rima em /a/, com refrão e leixa-pren  -- ainda se recordam do que é isso?


Amar amado amar amigo
O brial começado, o brial tecido
Ai meu amigo Ai meu amado

Amar amigo amar amado
O brial tecido, o brial começado
Ai meu amigo Ai meu amado

O brial começado o brial tecido
Chor’eu dona virgo o brial rompido
Ai meu amigo Ai meu amado

O brial tecido o brial começado
Chor’eu dona virgo o brial rasgado
Ai meu amigo Ai meu amado
Breves achegas para a interpretação da cantiga de amigo do meu trovador
No primeiro par de dísticos, a donzela exprime a sua condição de apaixonada, tendo já começado o enxoval para o casamento; apenas o refrão, sentido como um lamento, destoa.
O segundo par de dísticos revela-nos que algo correu mal no noivado. Embora o enxoval esteja começado, a donzela chora e, perturbada, assume-se como "dona", em manifesto contraste com o adjectivo "virgo", virgem, o qual remete para a sua condição anterior de donzela. Fica o lamento do refrão "ai meu amigo, ia meu amado"... 
E mais não digo,  que a subtileza era então uma arte.

2 comentários:

Anónimo disse...

e não tem autor, data ou origem?

Jose Catarino disse...

O autor é personagem da minha ficção. Como saberá, a poesia trovadoresca não está datada e tem em comum o ser escrita em galaico-português. O conceito de originalidade, que associamos ao de autor, só se impôs, a partir do Romantismo, introduzido entre nós na primeira metade do séc. XIX. A cantiga desenvolve, portanto, como quase todas as autênticas, uma invariante da cantiga de amigo, no caso, o da donzela que chora a perda da virgindade .