Número total de visualizações de página

terça-feira, 4 de setembro de 2012

J2HV -- da ilha do Lombo ao Rio Fundeiro

Passada a novidade e o desafio, a aventura sabia a rotina: remar, remar, trocar com o parceiro e descansar, para pouco depois o substituir. Nas margens, pinheirais queimados pelos fogos de Verão. Vivalma. Numa garganta apertada, o vento contrário e a ondulação eram tão fortes que recuávamos em vez de avançar. Só com a fibra do Vergílio conseguimos dobrar aquele cabo das tormentas. No Rio Fundeiro, o deslumbramento: o Zêzere alargava em todas as direcções, a povoação reluzia ao pôr-do-sol, estendendo-se da água encosta acima. 
Anoiteceu rapidamente e, sempre desconfiados dos humanos, acampámos num pinhal do lado oposto, tenda e barco bem escondidos. Durante a noite levantou-se temporal, chuva forte, vendaval violento, que fez recear queda de braças dos pinheiros a esmagarem-nos. Mas o sono era tanto que depressa esquecemos o perigo e adormecemos inconscientes. 
De manhã, o bom tempo voltara. O Vergílio insistiu para que fizéssemos a barba, para não parecermos marginais aos olhos do povo daquele fim de mundo, certamente desconfiado de estranhos. Nada fácil, tendo por espelho a água da barragem. Desembarcámos no Rio Fundeiro, povoação deserta, e encontrámos posto de telefone numa taberna. Foi a primeira e única vez que falámos com as nossas famílias, confirmando a chegada para dois dias depois. Não havia pão, creio que o padeiro só por lá passava um dia por semana, nem outros mantimentos à venda. 
Adiantados face ao previsto, a tenda bem escondida no pinhal, sem saber se encontraríamos nas margens escarpadas lugar propício para novo acampamento, decidimos pernoitar ali. O resto do dia foi passado à pesca, que pouco deu,  três ou quatro achigãs pequenos, que apressadamente fritos mal adubaram o jantar e não lograram consolar os nossos jovens  estômagos de remadores, queixosos do menu "rações de combate", na época bem pobres. 
Na manhã do quarto dia zarpámos para a etapa final, onde o rio cruza com uma estrada. História sem história, fica para o penúltimo post da série.
FOTO: o acampamento na margem oposta ao Rio Fundeiro.
Vídeo: o Vergílio, rijo remador e banhista destemido.

Sem comentários: