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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

J2HV - o primeiro dia

A barragem crescia adiante de nós, com braços tão largos que, não fora o mapa, e seguiríamos por eles pensando ser o troço principal do rio. Revezávamos-nos nos remos, calor e cansaço faziam-se sentir. Havíamos deixado para trás as lanchas que aceleravam na barragem, apenas uma ou outra passava por nós de tempos a tempos, talvez a almoçar na "ilha", de que ouvira falar no parque de campismo. Uma delas, à proa moça em top less, quase nos abalroou, numa tentativa de nos virar o barco com a ondulação, e desapareceu deixando gargalhadas em resposta  aos meus insultos, remo alevantado em ameaça vã. O incidente inspirou-me o conto A Sereia, que pode ser lido aqui.
Seriam umas quatro da tarde quando finalmente pusemos os pés em terra, na tal ilhota, àquela hora deserta. O meu companheiro vinha-me convencendo a adiar o almoço para, dizia, nos banquetearmos, não com uma das rações de combate, como eu queria e que cada um podia comer enquanto o outro remava, mas com uma deliciosa sopa de feijão que ele trouxera de casa. 
Na água límpida, fiquei a ver cardumes de bogas a comerem gulosas a sopa deliciosa, em que o gorgulho se misturava com o feijão. "Aí do bicho que passa pela garganta de outro bicho", sentenciava o meu companheiro, enquanto engolia avidamente colherada atrás de colherada. "Devia ter triturado a sopa, assim não vias a carne", e bocas do género, até que ele próprio, mais saciado, deu às bogas o resto da sopa enriquecida com a carne que tanto me enojava.
Rumámos para o local escolhido para pernoita, a Ilha do Lombo, a salvo de incêndios e resguardados da marginalidade.  Alcançámo-la já o Sol se tinha escondido atrás de cabeço, acampámos do lado oposto à estalagem, perto de água, receosos de roubo do barco, jantámos  pão com atum, e adormecemos imediatamente. 
Pela calada da noite, acordei com barulho estranho. Não se via um palmo à frente dos olhos. Alarmado, tentei despertar o Vergílio. Em vão. Dormia como uma pedra. Pela escuridão, martelo na mão, dissimulei-me até ao barco. E descobri que se tratava, não dos assustadores "molinos de los batanes", como os que apavoraram Sancho Pança e D. Quixote, mas de pescadores furtivos que batiam na água para afugentar os peixes para a rede. Pela manhã, ao contar o sucedido, censurei o meu companheiro: "Podiam ter-te levado, que não acordavas". 
A resposta do Vergílio virou anedota familiar durante décadas: "E eu que até dormi com a naifa debaixo da almofada!"
MAPA: o trajecto do primeiro dia. A remos, numa pequena chata. A seguir: da Ilha do Lombo ao Rio Fundeiro.

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