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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Baixa-mar

Os exames começavam no final da 4ª classe e era neles que eu brilhava. Sobretudo nas orais, porque aí havia espectadores e o meu pai podia sorrir orgulhoso do filho, dois reis de gente, apenas dez anos de idade, mas, reconheciam-no os assistentes, inteligente. O facto de ser pequenino e escanifrado ajudava: sobre o estrado, em frente do quadro negro, sem vergonha, respondia com confiança às questões dos examinadores, solenes, imponentes, atrás da secretária cujo tampo ficava ao nível dos meus olhos. Não era inteligência, era memória, era atenção. Assistia às orais dos Antónios, Adolfos, Carlos, a todas até ao jota, e mentalmente respondia às perguntas dos examinadores. Quando finalmente chegava a minha vez, tinha as respostas na ponta da língua:
-- Como se chamam as duas marés?
-- Preia-mar e baixa-mar.
E o presidente do júri, o professor Eurico, esquecido da solenidade da  prova, a mostrar a sua satisfação:
-- Baixa-mar pai a outro!

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