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sábado, 8 de janeiro de 2011

Nunca o invejoso medrou

... nem quem dele se abeirou, reza conhecido rifão. Não, não estou a pensar na campanha eleitoral em curso: não encontro nela, menos ainda em qualquer dos candidatos, nada de interessante. Estou a falar de mim próprio e de mim mesmo, a propósito do excerto que se segue, expurgado do rascunho da minha última novela por protestos das primeiras leitoras.
A arte é isso, o engenho prova-se nessas dificuldades; sei-o, à custa de me enjoar com muitas obras primas desse engenho e arte...  (Camilo, Vingança)
 
Compreendo a desilusão do leitor: resistiu até aqui, mas já desespera... Onde estão esses capítulos intragáveis, de um só parágrafo, páginas e páginas preenchidas apenas com listagens de nomes próprios ou de igrejas, que tornam o romance no melhor dos soporíferos e comprovam que estamos perante escritor de primeira água, capaz de desprezar e maltratar o leitor? Onde as partidas pregadas, para avaliar a cultura de quem lê, como aquele esófago de Mark Twain, que debruçado sobre uma asa contemplava meditativamente o pôr-do-sol? Onde a metáfora para decifrar, a alegoria que dê um significado profundo à obra e envolva o leitor na produção de sentidos? Quando aparece esse pintor que ganha a vida fazendo retratos dos turistas junto ao Sacré Coeur e a sua namorada, jornalista sempre em viagem, ora na Quinta Avenida, ora nas gôndolas de Veneza, ora pelas montanhas do Afeganistão? Pois, não há...
Está visto, este contador de histórias não respeita as regras do ofício; pior, vê-se que lhe falta paciência para minudências, pormenores, irrelevâncias. E esquece-se de explicar, evita dissertar, não se atira à igreja num anticlericalismo violento, mordendo-a com a ferocidade do Pitt Bull! Não ridiculariza as suas personagens, não nos dá herói decente nem vilão detestável... Eu sei: ele está errado. Sem mistérios para decifrar, conspirações tenebrosas contra a Humanidade, crimes nefandos, como espera cativar o leitor? E os críticos, se não são devidamente torturados, como podem admirar primeiro, valorizar depois, a arte do narrador? E é preciso tomar partido, dividir a sociedade em bons e maus, encontrar culpados para os males do Mundo, evitar o farisaísmo, apontar corajosamente dedo acusador!
A simplicidade aborrece e irrita, cada qual dizendo que assim também era escritor. Onde já se viu (tirando talvez o Decameron, o Lazarilho de Tormes, as Histórias e Contos de Proveito e Exemplo, o Amor de Perdição, O Velho e o Mar, O Estrangeiro...) uma obra impor-se, apesar da simplicidade e da clareza? Se até o velho Homero tem um capítulo da sua Ilíada recheado com nomes e genealogias!
Que fique lavrado, portanto, e sirva para memória futura, o protesto deste narrador descontente, a quem o autor não consente a autodiegese — vê-se que pouco aprendeu em Teoria da Literatura, de que lhe serve ter estudado o Genette? —, que se tenha presente este descontentamento, autorizando-se desde já o leitor a pôr de lado este livreco e a deleitar-se com outros mais ousados, que por isso mesmo conhecem o sucesso merecido, como aquele que até transcreve, ipsis verbis, o menu real que está sobre uma das mesas do Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa.
Histórias de amor há-as a pontapés, basta ligar a televisão, de amor feliz temos algumas, como a do David Mourão-Ferreira — que interesse pode ter uma história límpida de pessoas límpidas, que nem sequer são ricas, poderosas ou vestem bem, nem, pelo contrário, são miseráveis desgraçados, esquecidos por Deus e desprezados pelos homens, nem santos para o cardeal português da Congregação para a Doutrina da Fé beatificar enquanto aguardamos impacientemente pela canonização, com ou sem milagres, sabido que rareiam nestes tempos de cepticismo e de análises clínicas — nem canalhas a pedir escarro de desprezo?
Queria-se uma narrativa polifónica, emaranhada, que obrigasse o leitor a trabalhar, alisando rugas e pregas do texto, corrigindo incoerências, adivinhando sentidos ocultos, descodificando imagens, tropeçando em hipálages; na sua falta, que o autor para tal não tem nem imaginação nem talento, exige-se, pelo menos, um oponente, um adjuvante, e essas coisas todas do modelo actancial de Greimas, presente durante décadas nos manuais escolares de Português, por onde as leitoras e os leitores estudaram!

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