Número total de visualizações de páginas

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Outono de seu riso magoado

Crescem as noites, arrefecem os dias, alongam-se as sombras, até há pouco exíguas, verticais, duras – eis que difusas se confundem com natureza, casas, objectos, pessoas, e a lucidez que sempre nos faltou não alcança destrinçar nessa penumbra a realidade fugidia.
Não é só o Portugal tristonho a definhar, não; é todo um mundo de aparências, de quimeras, créditos, promessas plásticas de juventude eterna, vidas de sonho decalcadas de revistas de cabeleireira… Sabemos hoje (sabê-lo-emos?), que a riqueza era virtual como o dinheiro, como o crédito bancário,  e vemos as prometidas vidas de sonho esvanecerem-se para todo o sempre como sombras que jamais conseguiremos alcançar, ora fugindo à nossa frente se as perseguimos, ora a  seguirem-nos trocistas se lhes viramos as costas. Para nosso desgosto e revolta, espera-nos,  sarcástica, a frugalidade austera dos nossos pais e avós…
NOTAS: 
(1) post de Outubro de 2010; infelizmente bem actual.
(2) Título: verso de um poema de Camilo Pessanha.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

In illo tempore

Começa a nossa narrativa já não naquele tempo em que Jesus andava pelo Mundo, mas noutro igualmente saudoso, em que a missa era ainda em Latim para gáudio da miudagem que, ao fundo da igreja, o mais afastada possível de beatas, pouco compreendendo e menos ainda querendo entender, adulterava as respostas, mantendo a música: se, do alto do altar, o padre abria os braços e lançava cantado Dominus vobiscum, haveria malandro que substituiria o Contigo também entoado em coro por Merda pra ti também, com ar tão inocente que se, acaso, olhares indignados se viravam para trás era por causa da risota e não do dito... Orate frates, dizia o vigário e o povo respondia em vernáculo Oremos, enquanto ajoelhava no cimento da capela — mas o que se ouvia, se estivéssemos perto e atentos, era moço sussurrar, ao baixar-se como faria em vinha para arrear o calhau: Caguemos!

Pregado no crucifixo, Jesus refulgia quando a passagem da sotaina do padre espevitava as velas, como se também ele animasse com os disparates da mocidade naquele ritual chato e repetitivo e então eu pensava que se Ele saísse da cruz onde o aprisionaram para todo o sempre, também Ele quereria escafeder-se do cheiro a cera e a incenso, sem mágoa abandonaria beatas e templo mal iluminado e, atraído pelo Sol que resplandecia nos vitrais, voaria aliviado para os céus, sem esperar pelo final daquele santo suplício semanal que torturava a nossa juventude e O castigava há quase dois milénios...
Corria assim a vida, lenta, chata, sonhando com os vinte anos, distantes, tão distantes como a eternidade — então eu deixaria a aldeia, embarcaria, correria mundo sofrendo tempestades, evitando icebergues, sim, conhecia já a palavra, que já lera e relera Pedro, Pescador de Baleias, e também eu as caçaria, ou enfrentaria os piratas na Ilha do Tesouro, ou então chamar-me-ia Zé Crusoé e sobreviveria com arte e manha, sozinho numa ilha deserta do Pacífico...
O Sr. Prior prosseguia com o ritual e eu alheava-me novamente, e conversava agora com o próprio Jesus, persuadindo-O a deixar-me ajudá-lO a endireitar o Mundo, que tão mal andava; já então a Morte, como fim de tudo, me apavorava, sem que, por isso, me convencesse a retórica do padre apregoando o Céu, assustando com os padecimentos infinitos do Inferno. Não, aquele Céu de devoção beata, água benta e hóstias desenxabidas, tresandando a cera e a incenso, feito à imagem e semelhança de uma qualquer capela mal iluminada, onde o prazer adviria exclusivamente da eterna adoração a Deus, não me convencia, como me não seduzia viver a Eternidade na companhia dos velhos e velhas que assistiam ao Santo Sacrifício dominical.

Sobrevivíamos; hoje, meio século depois, creio que éramos felizes; naquele tempo, a palavra não tinha significado. Sabíamos o que era doença e saúde, fartura e miséria, frio e calor, mas felicidade não pertencia ao nosso vocabulário.

Um amor inventado. À venda na Leya Online

Idólatras contemporâneos

Adorem a quem quiserem, adorem o que quiserem, mesmo que se não dêem conta do ridículo que é adorar uma estátua, nem sequer interessante. Mandem-na para Roma como passageiro, já que consideram aviltante que viaje encaixotada no porão. Sugiro até primeira classe. Ou, pensando melhor, que mande o papa jacto privado buscar o precioso ídolo. Se não tiver, peça emprestado.
Mas quando se prostrarem, quando rogarem graças à deusa de porcelana, não se esqueçam disto, extraído do vosso livro sagrado:
Ex. 20.2 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão.
Ex. 20.3 Não terás outros deuses diante de mim.
Ex. 20.4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
Ex. 20.5 Não te encurvarás a elas nem as servirás...
Afinal, sois crentes, ou só acreditais no que em cada momento vos convém?
Razão tinha Saramago quando dizia que os católicos não lêem a Bíblia...

C'est trop facile

É fácil, é demasiado fácil, fingir. Na religião, na guerra e na paz, no amor. E em tudo o resto. É demasiado fácil enganar os outros e até, se não tivermos cuidado, iludirmo-nos a nós mesmos.

domingo, 6 de outubro de 2013

Um amor inventado (2)

"É tempo de nova pausa na narração, não para virarmos envergonhados a cara para o lado, mas apenas porque os jovens precisam novamente de intimidade, já outra vez o sobrado range, força ele para baixo, responde ela para cima, até parece que estão em desacordo, eles que rugem em uníssono. Deviam ter apagado a luz, para que, mesmo que quiséssemos, não víssemos nada; assim, não há como evitar, diga-se apenas que fazem um belo par, enlaçados, momentaneamente apaixonados, novamente alquebrados, outra vez o João a adormecer — sempre a mesma coisa, só para eles a cena não é monótona."

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um amor inventado

"Escurecia rapidamente. Dos arbustos ao fundo do jardim chegou o arfar de amantes escondidos e ouviu-se distintamente pergunta augada: — Agora tu deixavas!

— Deixava!, rosnou ela, e talvez ali tenha sido gerado outro ser vivente, que virá ao mundo pela mesma razão que todos nós viemos: porque calhou, como há milhões de anos calha de cada vez que a Vida decide que um único espermatozóide entre milhões de iguais penetrará num óvulo, simplesmente isso, aquele girino que jamais ouviu falar de amor, de moral, que não compreende metáforas, nem filosofias, nem teorias científicas explicativas do seu comportamento, nada cego rumo a um destino que apenas pressente, querendo ser o primeiro e o único, alcançá-lo-á, vá-se lá saber como, a Vida perpetua-se e a morte inelutável do Ser é outra vez adiada.

— Vamos embora daqui, disse a Berta, talvez por ser já noite e o ar estar gelado, talvez incomodada com os gemidos de outro amor inventado agora mesmo e ali ao lado, que tanto pode ser esquecido já daqui a minutos quando a coisa murchar, como durar até que a morte os separe, fortalecendo-se com a passagem das décadas, crescendo em ternura o que diminuirá em desejo... A ver vamos, que é matéria incerta."

Um Amor Inventado  --  romance motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe. À venda na Leya Online)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Cristiano Ronaldo centenário

Contava-se na minha mocidade que o então presidente da república, Américo Tomás, proferira num dos seus célebres discursos algo como:
-- Meus amigos, estamos aqui a festejar o centenário. Se Deus quiser, cá estaremos para o ano a comemorar o bicentenário.
Recordei-me da anedota ao ler este título no Público online:


Cristiano Ronaldo centenário nas competições europeias

Se Deus quiser, para o ano será, talvez, bicentenário...

NOTA: o Público já desactivou o link.  

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mundo de solidão


No lar, atrai-me a atenção velhota sem visitas. Noventa e três anos, dizem-me.

Mete-se com ela alguém que a conhece: 
-- Tia Francisca, quer boleia para Árgea?
-- Para quê? Já lá não tenho ninguém...
Espanta-se o conhecido. Pergunta por este, por aquela.
--- Já me morreu tudo...

Vendeta eleitoral

Se querem compreender algo do que se passou ontem, nas eleições, e as reais motivações dos eleitores, esqueçam os comentadores e façam como eu: vão à cabeleireira.
Na conversa, enquanto o pouco cabelo que me resta tomba na toalha, manifesto espanto pela derrota de candidata que aprendi a respeitar nos anos em que trabalhámos juntos e tinha tudo, supunha eu, para ganhar folgadamente a Câmara. Prova provada que de política, como de futebol, não entendo nada.
A cabeleireira surpreende-se: — Mas aqui, no Entroncamento, ela nunca podia ganhar!
— Por ser mulher? — pergunto ingenuamente, cuidando que machismo provinciano tivesse prejudicado a minha ex-colega. Ou eventuais ódios antigos, algo contra o pai, a família...
— Não, porque aqui os ferroviários têm muito peso e ela tirou-lhes o passe e às famílias!
— Mas ela não fez nada disso!
— Ora, é deputada e foram os deputados que tiraram o passe aos ferroviários...

Não é, portanto, com sessões de esclarecimento, propaganda partidária, militância, que se motivam os eleitores. Basta o "diz-se que" para arruinar uma candidatura. E a sanha vingadora: Ah a minha filha ficou sem o passe, a minha mulher tem de comprar bilhete para viajar de comboio? Pois alguém vai pagar por isso. Cá se fazem, cá se pagam!

E não, também eu não votei na Isilda, antes convencido de que ela ganharia sem problemas dei o meu voto a candidato que se tem distinguido na oposição. Também não ganhou, mas a tal já estará habituado... Como eu, que não acerto uma!

domingo, 29 de setembro de 2013

A revolta em Alpedriz

A agregação de freguesias foi feita à revelia das populações, da sua história e cultura, com completo desprezo pelas razões que levaram à sua constituição — antes de mais, a igreja onde o povo se reunia, se baptizava, casava, enterrava os seus defuntos, e os cemitérios onde, a partir de meados do séc. XIX, repousam, mais do que as ossadas, os elos que ligam os vivos ao passado, à família, à terra.
Alpedriz, com história que remonta, pelo menos, a D. Afonso Henriques, que tomou a vila aos mouros e lhe concedeu foral, viu a sua importância crescer ao longo dos séculos. Apesar de distante quatro ou cinco quilómetros de Cós, não manteve ligações históricas, nem culturais, nem, suponho, sociais  com Cós, outro importante centro histórico, que se desenvolveu em volta do seu convento de monjas de Cister. E Entre Cós e Alpedriz fica a minha terra, Montes, que muito progrediu desde que passou a ser freguesia — só então teve esgotos e saneamento, ruas alcatroadas, cemitério, centro de dia para a terceira idade, etc., e agora se vê remetida com a agregação para a apagada e vil tristeza de outrora.
Indigna-se o povo, a quem já quase tudo foi sido tirado e vê agora periclar o pouco que lhe resta, mas que afinal estrutura uma nação: o seu apego ao passado e o sentido de pertença a uma comunidade. Protesta o povo de Alpedriz contra a ignorância e a falta de sentido patriótico que está na origem da agregação de freguesias -- certamente escusadas nas cidades, mas fundamentais nas aldeias...


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Pingo de mel

Pingó mel, diz-se. Na minha terra, figos de Lisboa. De figueira que plantei há dois anos.

Primícias outonais

Dos meus jovens castanheiros.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pormenores e eucaliptos

No conto O Largo, de Manuel da Fonseca, um bêbedo vê destruída a história que conta empolgado -- por um pormenor. Dizia ele que tinha derrubado com soco um carteirista no (Largo do) Rossio, em Lisboa, e o homem bateu com a cabeça num eucalipto...
Com o progresso, tantos são os eucaliptos que por aí brotam que já houve quem falasse de "Portucaliptal". Pior, são apresentados tão assertivamente, mas defendidos com tal versatilidade, que tornam impossível qualquer debate sério. Por exemplo, numa discussão sobre poesia:
-- Como disse Einstein, tudo é relativo...
-- Mas Einstein não disse nada disso!
Vendo periclitar a imagem que laboriosamente constrói de si mesmo, o nosso interlocutor pode reagir de várias formas:
(1) -- Se Einstein não disse, podia ter dito!
(2) -- E que diferença faz, se estamos a discutir a interpretação do poema?
(3) -- Lá estás tu com a mania de que sabes tudo, nem sei porque é que ainda te dou confiança!
(4) Põe sorriso superior, ignora-nos, talvez dirigindo-se a adulador que oportunamente surgiu.
Duma coisa não tenhamos dúvidas: salva sempre a face, como se tal fosse mais importante do que a correcção da afirmação; e jamais lhe faltarão apoios, que o rigor incomoda muito no nosso Portucaliptal. 
Suponho que esta atitude -- generalizada, transversal, endémica --, se deve ao predomínio secular das Letras sobre as Ciências, com a consequente sobrevalorização da argumentação e dos seus artifícios  em detrimento dos factos.  
Mas, como praga, os danados dos pormenores insistem em saltar à vista, como no conto de Manuel da Fonseca, expondo a olhares atentos o rabo de palha -- que o sábio prontamente tapará ao ser alertado, não com humilde agradecimento pela correcção, mas com palavreado e tretas.

domingo, 22 de setembro de 2013

Sol de Inverno

Nada tem a ver com a telenovela da SIC. É o título do Capítulo 9 do meu romance Entre Cós e Alpedriz (2007), a que pertence este excerto:

Nuvens baixas correm pelo céu, das Sesmarias para a Santa Rita e, muito mais acima, outras vogam lentamente em sentido contrário, vagas, fluidas, incertas, indiferentes às vinhas perdidas que sobrevoam. Já o Sol de Inverno se esconde por detrás do Alto Casal, o dia arrefece, a luz intensa desaparece, fundindo-se com as sombras do crepúsculo. Ah, se estivesse agora nas Tojeiras, vê-lo-ia mais uma vez desaparecer ao fundo entre os pinhais que ocultam da vista o mar, onde se afundará tingindo-o de rubro.
Mar, mar, tão próximo e tão distante, mar gelado no Verão, afagando-lhe os pés descalços, mar cinzento no Outono, cheiroso do mexilhão com que enchia saca de serapilheira para patuscada na adega, mar violento no Inverno, quebrando-se contra molhes e penhascos, mar azul na Primavera, mar das sardinhas e dos chicharros, onde lavram pescadores em ceroulas de flanela, mar que chega aos Montes trazido pela maresia quando o vento sopra de feição ou nas canastras das peixeiras, as pexinas, correndo para evitar que outra chegue primeiro a casa da freguesa, sempre apregoando o pescado com a musicalidade do falar da Nazaré...
Mar — vê-o nitidamente, tal como o avistou do Sítio quando levou o filho Francisco pela primeira vez à praia, teria o moço então uns seis anos. Ah, como lamentava agora o rigor com que tratara a criança, surra em cima de surra, ralhos sobre ralhos, proibições de fazer isto, de andar com este ou com aquele, e nem a desculpa de ter procedido como todos os outros pais, como o seu próprio pai procedera para consigo, lhe servia já de atenuante. Fora brutidade, fora ignorância, fora maldade, e ainda bem que já havia quem começasse a quebrar o costume que se arrastava há tantas gerações que parecia perder-se na origem dos tempos; vê crianças semi-nuas, vestindo apenas uma camisola interior que já não lhes tapa a barriga inchada pela subnutrição, descalças sobre geadas de Fevereiro, arrancando lâminas de gelo da superfície de poças de água, o ranho escorrendo pelas faces — para “enrijar”, dirão rindo cinicamente as bestas dos pais, tentando assim justificar a crueza com que tratam a prole... Logo, logo, o remorso cede lugar à imagem da água do mar espelhada nos olhos do moço enquanto caminhavam ambos pela beira-mar, os pés finalmente livres das botas que todo o ano os aprisionavam, o perfume da maresia enchendo-lhes o peito, o céu azul cortado pelo voo branco das gaivotas, as sardinhas prateadas palpitando nas redes, a alegria resplandecendo no rosto dos pescadores,
como camponeses após abundante vindima — e lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavalinhos do carrossel na Feira de São Bernardo, sempre correndo, ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar! Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as crianças que tinham visto pouco antes a entrar...
(A quem possa interessar: o romance está à venda na Leya Online. Em papel, pode ser encontrado, por exemplo, no Parque dos Monges).

Leitura crítica

Proponho como actividade de domingo uma leitura crítica da descrição do deserto que se segue. Depois, podem confrontar os vossos pareceres com os de Rodrigues Lapa, também transcritos.
"Noite encantadora! O luar banha com os seus raios argentinos o areal desértico e imenso. Tudo brilha e refulge sob a claridade branda e suave da Lua. As estrelas, como milhões de pirilampos, estão disseminadas pela quietude misteriosa do firmamento. E no silêncio sepulcral do deserto, apenas cortado pela brisa rumorejante e dolente dos oásis, tudo parece contemplar o céu, meditando no enigma do infinito. Algumas poucas árvores frondosas erguem as copas altaneiras, como que orando a Deus pela solidão atroz que as envolve. Naquela noite alguém lhes faz companhia. É uma caravana. As tendas espalham-se pelo oásis, sob a abóbada das ramagens. Tudo parece dormir. Somente a Lua é cada vez mais brilhante e mais bela, fazendo da areia do deserto um manto branco de virgem a perder de vista nos horizontes longínquos".
"Tudo neste texto soa a falso — a falsidade das coisas que não são vistas nem sentidas directamente por nós.  Os clichés são em número infinito, como as areias daquele deserto postiço: noite encantadora — o luar banha — raios argentinos — areal imenso — claridade branda da Lua — silêncio sepulcral — brisa rumorejante — contemplar o céu — meditar no enigma do infinito — árvores frondosas a erguer as copas — solidão atroz que as envolve — manto branco de virgem — horizontes longínquos.
Uma série de locuções estafadas, de imagens corriqueiras, que, por isso mesmo, nos não produzem a menor impressão artística. A gente sorri-se do inexperiente autor, que procurou fazer estilo, seguindo precisamente o caminho contrário: não nos pôde dar os resultados da sua própria experiência, por não tê-la, e reproduziu apenas o que anda na boca ou nos bicos da pena de toda a gente. O efeito foi desastroso."
M. Rodrigues Lapa. (1984). Estilística da Língua Portuguesa, 11ª ed., Coimbra Editora, Lda., pp. 90-91

sábado, 21 de setembro de 2013

Inveja

Como na cantiga alentejana, não invejo quem tem carros, parelhas e montes  —  mas quem escreve bem.
Como o Padre António Vieira:
A primeira maravilha foram as pirâmides do Egipto, a segunda os muros de Babilónia, a terceira a torre de Faros, a quarta o colosso de Rodes, a quinta o mausoléu de Cária, a sexta o Templo de Diana Efesina, a sétima o simulacro de Júpiter Olímpico. E deixando o anfiteatro, de que só se vêem as ruínas, as pirâmides caíram, os muros arrasaram-se, o colosso desfez-se, o mausoléu sepultou-se, a torre sumiu-se, o farol apagou-se, o templo ardeu, e o simulacro como simulacro, desvaneceu-se em si mesmo. 
Veja-se como o autor evita os adjectivos e explora magistralmente a expressividade dos nomes e verbos, a relação entre ambos — e como as repetições, habitualmente tão maltratadas, surgem inevitáveis.  Que inveja! Que lição! 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Verde que te quero verde

Falhei nas previsões meteorológicas, talvez por ter projectado na Lua os meus desejos de chuva. E com este calor, quase sem água para rega, o verde seria miragem -- não fosse a estufa.
Para minha surpresa, o calor da estufa no Verão não cozeu as culturas, antes as desenvolveu opulentas; com temperaturas quase sempre acima dos 45 graus, tive abundante produção de pepinos, feijão verde, alfaces, rabanetes, cenouras... E fora da estufa, quase nada.
Ei-la, com canteiros de couve à espera de chuva e terra preparada para onde transplantar, mais feijão verde, nabos, nabiças, rabanetes, pimentos, malaguetas, cenouras, alfaces... 
Um oásis.


domingo, 15 de setembro de 2013

Esperança

De que o tempo mude, apesar das previsões meteorológicas o negarem.
Estas nuvens que quase ocultam a Lua podem trazer aí a mudança por que quase todos suspiramos.
É preciso que chova para nos libertar deste calor maldito, evitar que crianças e professores sejam cozidos nas salas de aula.
Para me permitir lavrar, fresar, preparar as terras para as plantações de Outono, já muito atrasadas. Para que as árvores e cepas me não morram à sede.
Para lavar as uvas do pó do Verão e dos resíduos dos pesticidas. 
Para limpar o ar. 
Para tanta coisa.

sábado, 14 de setembro de 2013

Quase como Diógenes

Éramos novos, acreditávamos, procurávamos.  Não apenas um homem -- então como hoje, uma raridade -- mas a humanidade. E a verdade, a beleza, a justiça. De dia, como Diógenes, mas também na negrura da noite, impenetrável, misteriosa, sedutora -- irresistível.
Irrelevante o que achámos. Como a certeza de que as verdades que nos moviam residiam no ferrão peçonhento de um lacrau. Que a justiça, mais retórica, menos retórica, continua a ser a lei do mais forte. Que a própria beleza é passageira...
Mas descobrimos também, como os jovens das gerações que nos precederam, que é a procura que anima a vida, lhe dá sentido, e nos diferencia dos restantes animais, não humanos e humanos. Que a beleza está em ajeitar o caminho que inevitavelmente teremos de percorrer. 

FOTO: o Henrique, anos 70. Acampados na Serra da Estrela, na neve, com frio que nos trespassava. Éramos assim.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ivan Sag

Chega-me por mail a notícia da morte de Ivan Sag:
Dear Colleagues,
It is with great sadness that I pass on to you the news that Ivan died yesterday afternoon. He had been very ill for quite some time.
Some months ago there was a workshop in Stanford to celebrate this life in linguistics. At the time he was already very ill, but in spite of this he played a full part in the proceedings, and his intellect and enthusiasm were undiminished.  
He was a great linguist, and a good friend. He will be badly missed.
This is how I will remember him:
http://hpsg.fu-berlin.de/~stefan/Bilder/2009/07/08/ivan-sag/

Best wishes
Doug Arnold
Chair, HPSG Standing Committee

Não o conhecia pessoalmente. Mas foi muito importante para mim, aquando da realização da minha dissertação de mestrado: Ivan Sag foi um dos pais do modelo linguístico em que, por indicação da minha orientadora, enquadrei teoricamente o meu trabalho -- a Head-driven Phrase Structure Grammar (HPSG) .
Recordo os esforços penosos que fiz para tentar entender esse quadro teórico que rompia com o cânone (representado pelos sucessivos modelos generativos apresentados por Noam Chomsky, de quem Sag foi doutorando), demais a mais com toda a bibliografia em Inglês, língua que lia mal. Mas depressa fiquei fascinado pela clareza expositiva e pelo rigor científico de obras como Head-driven Phrase Structure Grammar (Pollard & Sag, 1994), English Relative Clauses (Sag, 1997), Syntactic Theory: a Formal Introduction (Sag & Wasow, draft 1999). E foi profundamente entusiasmado que tentei descrever no quadro teórico da HPSG dependências de longa distância como as que ocorrem nas orações relativas do Português.
Por isso me associo com sentido pesar à homenagem que os seus amigos e colegas lhe prestam.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O Papa e a Síria

Escrevi "Lá vamos nós outra vez!" indignado com a propaganda hipócrita dos media, a prepararem o terreno para ataques americanos à Síria, com argumentos tão gastos que certamente só os utilizam convencidos da nossa fraca memória. Ou indiferença. Ou burrice.
Que fique claro: não duvido da utilização de armas químicas na Síria. Duvido da autoria, o que é bem diferente. E no horror da guerra, o que mais me preocupa não é saber se os mortos foram queimados, estraçalhados por bombas, executados à falsa fé ou gaseados.  Preocupa-me o porquê, o por quem. Em nome de que interesses. 
Intrigam-me as razões que motivam a aliança tão estranha entre americanos e Al Quaeda. Será o preço  a pagar por negociações que têm decorrido no Afeganistão, para que os americanos possam de lá sair, senão airosamente, pelo menos de fininho, rabinho entre as pernas? Que, estou sempre a dizê-lo, é fácil começar as guerras. Agora terminá-las!
Alegrou-me ver que por todo o lado havia gente que pensava como eu, e exprimia racionalmente, com argumentação sólida, o que eu digo de forma emotiva. Tanta gente que desta vez até os ingleses recusaram participar na aventura americana, de consequências imprevisíveis. Mas negativas. Basta ver  no que deram as recentes intervenções no Iraque, no Afeganistão, na Líbia.
Uma dessas vozes, que espero seja escutada, foi a do Papa:
O Papa repetiu neste domingo o seu apelo a uma “solução justa” para a Síria e, um dia depois de ter juntado cem mil pessoas na Praça de São Pedro numa vigília pela paz, lançou novo repto aos que defendem uma intervenção militar contra o regime de Damasco ao afirmar que muitas guerras têm como único propósito alimentar o comércio de armas.
Não estou, portanto, só nesta minha campanha contra a guerra...

sábado, 7 de setembro de 2013

Fogo

Perto de mim. Começou pela meia-noite. Não é, portanto, nem acidental nem resultado de desleixo. Entretanto, outras sirenes das redondezas fazem-se ouvir. Suponho que os bandidos estão a atear outros incêndios.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ainda o piropo

Com o piropo na ordem do dia, certamente por falta de matéria mais importante, e não querendo deixar de, também eu, me pronunciar sobre assunto tão relevante, fui buscar o excerto que se segue a Do lacrau e da sua picada:

"Estranha o vazio e a tristeza do Largo do Santo António, sem os seus reformados, uns jogando às damas, outros espreitando gulosos a passagem das raparigas a caminho da escola ou das lojas, esquecidos de que o seu tempo já lá vai, embora se sintam obrigados a fazer o seu papel, uma vez que os novos, como o Luís, não dão mostras de lhes suceder dignamente.
— Ah, rapazes, havia eu de ser outra vez novo, ter agora vinte anos, e saber o que sei hoje!
Ignora-se que sabedoria seja essa, não se enxerga nada que preste, apenas uns piropos grosseiros a moças que bem podiam ser netas; elas seguem na mesma o seu caminho, só que furiosas, vociferando entre dentes, — Cota de merda, velhadas do... ,
Não admirará se qualquer dia uma enfiar a mão na cara do galã fora de prazo, os tempos mudaram e eles não se deram conta disso, enfim, não os critiquemos mais, cada um sabe de si e Deus Nosso Senhor de nós todos, o que é certo é que o largo não parece o mesmo sem eles."

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ainda a Síria

Desculpem a insistência, era minha intenção não voltar a falar da Síria até a guerra começar. Mas não consigo calar-me. Hoje leio isto no DN:
O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, afirmou hoje que é improvável que o ataque com armas químicas tenha sido perpetrado pelos rebeldes e que uma possível ação militar contra a Síria não contará com tropas no terreno.
Porra, não tem a certeza, baseia-se em palpites aparentemente tão válidos como os meus, que considero improvável ter sido o regime sírio a recorrer às armas químicas, e propõe-se mesmo assim começar uma guerra? Uma guerra que pode depressa degenerar em conflito mundial, que a Rússia não ficará passivamente a ver  os americanos estoirarem alvos estratégicos do seu aliado?
Espertos foram os ingleses, que arranjaram forma airosa de se porem de fora desta pouca vergonha que americanos e franceses preparam para, dizem eles com despudor, defender os seus interesses.

Ainda a Menção Especial no Prémio Glória Marreiros

Como uma criança que com qualquer ninharia fica feliz, assim reajo eu de cada vez que um dos meus escritos merece distinção. Não se trata de alegria semelhante à que nos proporciona rifa premiada em quermesse da aldeia, que dá o direito de levar para casa uma qualquer penicada. Não, é algo de substancialmente diferente, que resulta da satisfação  de saber que alguém me leu, apreciou e achou por bem destacar esse produto do meu trabalho. 
Por isso, ontem corri a partilhar a notícia que acabara de receber: o júri do Prémio (literário) Glória Marreiros tinha distinguido uma narrativa minha com Menção Especial. 
Não o esperava: o concurso era de novelas e, não tendo nenhuma aprontada, enviei sem grande convicção um conto que hibernava na gaveta, apenas porque os concursos e prémios quase desapareceram por força da crise, e eu estava a ver que este ano não desjejuava...
As numerosas mensagens no Facebook a parabenizar-me sensibilizaram-me deveras. Para além das da família e dos amigos de longa data, quero sublinhar a emoção que me deram as de antigos alunos e alunas, que assim mostraram não terem esquecido o professor de outros tempos -- que, não raro, os contrariou, os aborreceu, pautando-se pelo seu sentido do dever e não pela moda pedagógica que postula como motor da aprendizagem o prazer e a diversão. E a propósito desta Menção Especial volto a fazer minhas, como então fazia, as palavras do poeta em Mar Português : "Quem quiser passar além do Bojador tem que passar além da dor."
Um abraço para todos.

A lição da fábula

O regime sírio não é cordeiro, antes lobo feroz. Mas a intervenção armada que se avizinha não se move pelo desejo nobre de proteger e livrar o povo sírio da tirania, antes por interesses vis, como os próprios dirigentes americanos despudoramente agora confessam, ao verem desmentidas as suas acusações de que havia sido o governo sírio a usar armas químicas.
A Casa Branca disse na última noite que os EUA vão "continuar a consultar o governo do Reino Unido – um dos nossos amigos e aliados mais próximos" e a decisão de avançar ou não "será norteada pelos interesses americanos". 
(no Público, negrito meu).
A mudança de argumentos, que aqui previ, assemelha-se em tudo à argumentação do lobo que na fábula de La Fontaine procura convencer o cordeirito de que tem motivos para o punir -- como Hollande. E quando as razões se esgotam, fazem como o lobo, que sem mais pretextos para comer o cordeiro, prontamente o matou e devorou, pois, ensina a fábula, a razão do mais forte é sempre a melhor ("La raison du plus fort est toujours la meilleure").
Como agora. Resta saber se americanos ainda são os mais fortes. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Menção especial

Soube há instantes que o júri do Prémio (literário) Glória Marreiros distinguiu a minha narrativa Na Boca do Inferno com Menção Especial. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Quem usou armas químicas na Síria?

Isto de culpar antes de investigar tem que se lhe diga. Segundo o DN,

"A Síria apresentou ao Conselho de Segurança da ONU provas de que o ataque com armas químicas, a 21 de agosto nos arredores de Damasco, foi realizado por forças rebeldes, foi hoje anunciado.

"Entregámos às Nações Unidas todas as provas e documentos que mostram que foi a oposição, não o Estado, que utilizou armas químicas", disse aos jornalistas o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Faisal Miqdad.
As provas foram entregues na terça-feira, afirmou o responsável sírio, insistindo que as autoridades jamais utilizariam armas químicas contra civis.
Uma missão de peritos da ONU está atualmente na Síria, onde ficará, em princípio, até sábado, para investigar vários casos de alegados ataques com armas químicas, pelos quais se acusam mutuamente regime e oposição. (...)"
Qualquer que seja a verdade dificilmente mudará o curso dos acontecimentos. Se este pretexto para um ataque à Síria for inviabilizado, arranja-se outro.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Freixo de Espada à Cinta

Sob o calor daquele 28 de Junho, a povoação parecia parada no tempo, quase sem actividade humana — apenas os velhotes descansavam à sombra da igreja.



Lá vamos nós outra vez

Jugoslávia. Iraque. Afeganistão. Líbia. Todos os outros países de que me esqueci. Sempre com bons pretextos, que depressa se verificaram falsos. Não tenho nenhuma dúvida de que os povos de todos esses países, e os vizinhos, estão pior do que antes das intervenções 'bem intencionadas'. De boas intenções está o inferno cheio.
O ímpeto justiceiro dos americanos e dos media que por eles ladram não cessa. Junta-se um Hollande que quer "punir" — foi o verbo que utilizou — o regime sírio. É difícil uma potência colonial como a França ultrapassar os traumas do passado. Sobretudo quando, como hoje se soube, o desemprego em França continua imparável.
Revolta-me o massacre de inocentes, o uso de armas químicas ou de outras contra a população indefesa. Mas não alinho em maniqueísmos, de um lado os bons americanos e seus amigos, do outro os seus inimigos, os maus. Estou farto de ser enganado. O homem é a mesma merda qualquer que seja o seu partido na guerra, todas as guerras são horríveis e as piores são as guerras civis, disse-o um francês sábio, creio que Descartes.  E a qual das partes mais aproveita o uso do  gás,  sabido que é que os vários grupos muçulmanos não hesitam em massacrar os seus para conseguir intervenção estrangeira?
Alegrem-se os media, podem até mandar o Rodrigues dos Santos fazer reportagens em directo de Damasco, terão com que encher os telejornais que preenchem os jantares em família. Alegrem-se os fabricantes de armas, os militares, os políticos, que desviarão as atenções da sua incompetência para governar os respectivos países, da sua incapacidade para cumprir as promessas eleitorais. Alegrem-se as boas consciências, vendo em directo os maus a serem punidos.
Mas vejam se não se esquecem, e se mais tarde não lamentam as atrocidades dos bonzinhos que colocaram no poder.
ADENDA
Diz-me a Cláudia no Facebook:
Nem de propósito, terminei hoje de ler estas 20 reportagens sobre a Croácia e acho que ficam aqui bem: http://www.pierreroux.com/photographe/prefacecroatie.html.

Mogadouro

Já no regresso a casa, a visita resumiu-se ao castelo em ruínas (com um burro à sombra da torre)  e a umas águas em café do centro.



Miranda do Douro e o Mirandês

Conhecíamos Miranda do Douro de visita anterior, quando por lá procurei sem sucesso vestígios do Mirandês.
O Mirandês foi descoberto em finais do séc. XIX, contava o professor Lindley Cintra, por um jovem estudante de medicina, de seu nome Leite de Vasconcelos, que ouviu o companheiro de quarto cantar numa língua estranha. Intrigado, foi à terra do colega, reuniu materiais, e apresentou num congresso de Filologia Românica a descoberta de uma língua até então desconhecida.
A paixão pelo estudo das línguas levou Leite de Vasconcelos a deixar a medicina, vindo a ser nome marcante na Filologia Românica. Entre outras descobertas, a de que o Mirandês era afinal um dialecto leonês, vestígio fossilizado do falar do antigo reino de Leão -- hoje dizem que é uma língua, mas importa destrinçar motivações económicas e políticas de argumentos linguísticos.
Ora o Mirandês ficou-me atravessado desde os tempos de faculdade, onde aprendi que apenas em três regiões nacionais se não falava Português -- Miranda do Douro, Guadramil, Rio de Onor --, e porque no meu último teste da licenciatura, precisamente Linguística Românica, feito na sala Leite de Vasconcelos  em dia de tal calor que o professor Lindley Cintra nos pediu licença para desapertar a gravata, saiu um texto que eu identifiquei como sendo Leonês de uma região muito próxima de Portugal, uma vez que continha alguns porteguesismos.
À saída, em conversa com colegas, senti crescerem-me orelhas de burro por não ter visto que só podia ser Mirandês... Enfim, ainda tive treze no teste, então uma belíssima nota.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ainda a Lua

Tinham matado o porco, e o meu avô Cipriano zangava-se com os filhos, que o não desmanchavam tão depressa quanto queria. E gritava, brandindo o Borda d'Água:
-- Despachem-se, já só falta uma hora para  a Lua Nova!
-- Avô, o que é que a Lua faz à carne?
Com a paciência que temos para com os netos e nos falta para os filhos, esclareceu-me: -- Um homem matou o porco, não lhe pôs sal, a carne estragou-se e disse que tinha sido por causa da Lua.
E outra vez aos berros com os meus tios: -- Despachem-se, vem aí a Lua Nova!

domingo, 25 de agosto de 2013

Poemas de Xanana de Gusmão em Russo

Segundo o DN, que cita um jornal russo, Timor vendeu o seu voto para a organização da Exposição Mundial de 2020. O preço? A tradução e publicação em russo dos poemas de Xanana.
Poucas notícias me espantam, quase todas me enojam.

sábado, 24 de agosto de 2013

De Bragança a Miranda do Douro

Quarto e último dia da viagem pelo Norte. Descampados ermos, secos, que ribeira apertada em vale estreito não logra amenizar. Paisagem a meu gosto, solidão bastante, silêncio violado apenas por cigarras e raros passarinhos.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O homem da Lua

Não eu, mas todos os que têm vista apurada distinguem nitidamente na Lua um homem com molho de silvas às costas. Poucos saberão por que lá está, como lá foi parar, que fez para merecer tal castigo, o da eterna solidão, que nem mesmo os astronautas americanos lhe renderam visita quando, nos idos de 69 pousaram, dizem eles, no nosso satélite.
Pois o homem andava a cortar silvas ao domingo, o que, como todos sabem, é pecado mortal.
Domingo era então dia de bebedeira, de tareia na mulher, de zaragata com os vizinhos, como hoje o é de ida à praia, de almoço fora; pode-se trabalhar, por exemplo, penando atrás de caixa do Continente, ou em bomba de gasolina, ou a servir à mesa, ou a animar festas populares. Livrem-se, porém, de roçar silvas, de pegar em enxada ou tractor -- logo vos excomungarão os que no adro da igreja, no café ao lado, religiosamente cumprem o descanso semanal, prolongando o do resto da semana.
E, fiquem cientes, aguarda-vos castigo idêntico ao do homem das silvas que Deus colocou na Lua para exemplo de todos aqueles que ousarem desrespeitar domingo ou dia santo, seja ou não feriado, cometendo o pecado de trabalhar na terra ou lá ir passear de tractor, sendo porém permitidos os outros veículos todo-o-terreno... 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Aniversário

Da minha menina mais velha.



Os enganos de Deus

Mesmo tendo em conta que os desígnios divinos são insondáveis, muita confusão me faz saber que se pode ter enganado nas Suas escolhas, como depreendo das declarações do papa resignatário. 
(Talvez ninguém devesse falar para a imprensa a partir de certa idade, mesmo que o julgue fazer por inspiração divina...)
Este episódio recorda-me muitos outros, envolvendo personalidades como Margareth Tatcher ou o famoso mestre de karaté G. Yamaguchi, Tesouro Nacional do Japão, que, aos oitenta anos, contou a um jornal que certo dia, para combater o tédio, tinha ido à montanha lutar com um tigre. Resultado: a Japan Karaté Association (Goju-Ryu), a que presidia, demitiu-o e tornou obrigatória a reforma dos seus dirigentes aos setenta anos.

Assassino e incendiário

O fogo é pior do que um ladrão, dizia a minha avó. E explicava: o ladrão rouba, o fogo mata e destrói. Há quem mate, depois ateie incêndios -- dez, segundo a polícia -- e se veja recompensado com o rendimento mínimo. A mim, ofende-me que nós, vítimas, tenhamos  de pagar  a criminosos para que lhes não falte tempo livre para os seus desmandos. 
Alguém me dá boas razões para que os incendiários não sejam condenados a trabalhos forçados, limpando matas, combatendo fogos? E para os assassinos não terem de pagar pelo que fizeram? E para o rendimento mínimo ser atribuído a marginais?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bragança

Ao terceiro dia do nosso passeio pelo Norte pernoitámos em Bragança. Pelo caminho, as visitas já referidas a Mirandela e Valpaços, depois a Macedo de Cavaleiros e à sua praia fluvial. O calor persistia e, para piorar, a minha dor de cabeça atacou-me forte. 
Enfim, aproveitei o que pude: a cidade à noite, passeio à beira-rio -- e como aprecio as cidades que têm rio e dele cuidam! -- excelente jantar. Na manhã seguinte, calcorreámos a cidade, da parte velha à nova, que é a pé que melhor se conhece o país, subindo e descendo sob o calor, procurando a fresquidão das sombras,  a brisa das esquinas, sorvendo, ao passar pelos cafés e pastelarias mais frequentados, o aroma do grão acabado de moer, por entre o corrupio das gentes que vão e vêm da praça...
Bela cidade. Mas sou suspeito, eu, que sempre me encanto com as viagens na minha terra.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Valpaços

A viagem por terras da Maria da Fonte incluiu passagem por Valpaços, onde a 16 de Novembro de 1846 se travou uma das batalhas decisivas da guerra da Patuleia, que se seguiu à revolta do Minho.
Nessa batalha, o Barão do Casal derrotou as forcas patuleias da Junta do Porto, comandadas por Sá da Bandeira, o lendário Sá Maneta, graças à deserção dos regimentos de infantaria 3 e 15, que mudaram de campo.
Na retirada pelo rio Douro, as forças patuleias foram atacadas da margem pelos guerrilhas miguelistas de MacDonnell --  um dos quais o jovem Camilo Castelo Branco.
Tempos e personagens fascinantes, que tenciono incluir no romance que penosamente vou escrevendo. Se algum leitor me puder fornecer elementos sobre o Barão do Casal ou indicar bibliografia, fico muito grato e não deixarei de incluir o seu nome nos Agradecimentos caso a obra venha ser parida.
IMAGEM: a coalizão, aliança entre arqui-inimigos, hoje de difícil entendimento.

sábado, 17 de agosto de 2013

Mirandela

O rio, o parque ribeirinho, as alheiras. De tudo gostámos por igual, e por esta ordem.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Chaves

Chegámos ao entardecer, e logo nos precipitámos para a piscina do hotel, a refrescar de todo um dia de calor, estrada cansativa, alguns percalços. À noite, passeio nocturno pelas margens do Tâmega. Espaço muito bem arranjado, onde as famílias convivem na frescura do rio. Pedras colocadas em fileira à distância de um passo permitem atravessar o Tâmega a vau. O que fizemos, apesar da escuridão.

Esperava-nos, a contrastar com a amenidade das margens do rio, noite de calor infernal. Desculpa tuga do funcionário da recepção do hotel: "O ar condicionado avariou hoje e o técnico ainda não veio..."
De manhã, visita à parte histórica da cidade. Museu, museu militar em torre do castelo, do alto vista panorâmica sobre a cidade. Interessante, a parte velha.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Karaté toda a vida

Ao avizinhar os sessenta anos, mais de metade dos quais de prática do karaté, e com a paixão pela arte bem viva, impõe-se-me uma reflexão sobre a forma de treinar por forma a poder praticar enquanto a saúde mental e física o permitir.
Não é, porém, esta a perspectiva dominante nos 'dojos', mesmo quando os praticantes já não são jovens e sofrem com as mazelas da idade e da prática. Os mais velhos a imitar os mais novos e não o contrário.
O vídeo de baixo afigura-se-me um importante exemplo e contributo para a prática em idade avançada. Nele, Morio Higaonna, nome incontornável no karaté estilo Goju Ryu de Okinawa, com 70 anos, dá informações muito interessantes sobre onde e como treinar, a alimentação, mostra aplicações a dois, orienta a execução dessa kata extraordinária que é Sanchin, base dos estilos Goju Ryu e Uechi Ryu -- e de alguma forma presente no estilo Shotokan, na kata Hangetsu.
Para reflectir.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Imerso num mar de dúvidas

Desde a mais tenra infância que os porquês da vida e do Universo me intrigam e inquietam.
Cresci, mais em anos do que em tamanho, e deixei de irritar os outros com questões que a muito poucos interessam, por demais preocupados com assuntos verdadeiramente importantes, como o campeonato de futebol, a Albuquerque e o negócio dos swaps, o nascimento de um bebé na família real britânica, as viagens do novo papa.

Passei a procurar respostas nos livros, sem desprezar obras religiosas como A Bíblia; mas nela encontrei sobretudo poesia primorosa, como o Cântico dos Cânticos, e um repositório de histórias encantadoras na sua ingenuidade, como o Génesis, a par de outras de fraco proveito e mau exemplo, como Abraão e o filho, José e os irmãos, o velho pai que os filhos sodomizam... Nem o Novo Testamento escapa à vulgaridade, com S. João obcecado em nos convencer de que era o discípulo que Jesus mais amava, discussões de comadres entre os apóstolos sobre o respectivo lugar no poleiro celeste, comparações entre o baptismo com o Espírito Santo e o baptismo com água do Baptista...

Palavreado sem significado, como muito daquilo que hoje se escreve, que me traz invariavelmente à boca o velho Porquê? O que é que isso quer dizer? Qual o significado desse adjectivo, desse substantivo, desse verbo, dessa metáfora, dessa comparação?
Pois, todos o sabemos, palavras, por bonitas que sejam, depressa as leva o vento, sem que nos deixem ideias, as quais, raras e preciosas como as pérolas autênticas, devem ser colhidas com esforço nas profundezas do mar do pensamento. As quais, quando existem, dispensam o floreado de palavras, rejeitam a expressão gongórica, recusam os artifícios da retórica. Ideias que surgem sobretudo na ciência e raramente sobrevivem aos argumentos destruidores dos pares e à experimentação. E a ciência, tão compartimentada, tão especializada, com a sua metalinguagem, surge opaca ao leigo como eu. Só o talento de cientistas-escritores que a Gradiva tem trazido até nós me tem permitido acompanhar, vagamente, o espantoso mundo das descobertas.
Há uns anos, insatisfeito com a escassez de obras de divulgação científica e com a lentidão com que são traduzidas, com a sua desactualização, inevitável dada a rapidez do progresso científico, passei, graças à Amazon e ao Kindle, a ler penosamente no original as obras mais recentes. Tenho encontrado, não a resposta aos grandes porquês, que a ciência não é o domínio das certezas, mas novas questões, igualmente fascinantes, de que, por vezes, aqui tenho dado conta, como, por exemplo, reflexões sobre a natureza do Universo, quais e quantas as suas dimensões, como pôde surgir do nada, a matéria e a energia negras, o espaço e o tempo... Saber que não terei as respostas não me desanima. Sou capaz de viver sem certezas. Também eu prefiro a incerteza e a dúvida à certeza da ignorância.





sábado, 10 de agosto de 2013

Em dia de canícula

Levanto-me pela fresca, mais cedo do que o habitual. Quero regar os pessegueiros e as laranjeiras do Casal. Primeiro vou ao Vale da Junqueira buscar motor de rega, chupador, mangueiras. Imediatamente me apercebo de que os coelhos furaram por baixo da vedação de rede que defende o feijoal. Ao todo, oito buracos, que tapo o melhor que consigo. Daqui para a frente vai ser a velha guerra, eu a defender a sementeira, eles a procurarem forma de a destruir. Ou cavando túneis, como os presidiários de antigamente, ou saltando por cima. Ainda passo pelas Sesmarias, a avaliar os estragos nocturnos causados pelos javalis no milheiral. Uma dor de alma.
Chego ao Casal por volta das nove horas. Faço caldeiras, estendo as mangueiras, ferro o chupador, consigo pôr o motor a trabalhar. Quem não se entender com a mecânica, por pouco que seja, fará melhor em se dedicar a outra actividade. À balnear, por exemplo. O motor finalmente pega, mas a água não corre nas mangueiras. Páro-o, volto a atestar chupador e bomba de água. O mesmo. Repito vez após vez. Retiro o chupador do poço, verifico a válvula, repito. Não puxa água. Repito e repito. Até que ela jorra. Arrasto a mangueira de árvore em árvore, atenuando a sede de que sofrem. Obra de caridade, esta de dar de beber a quem tem sede. Ou à planta sequiosa, vivente como nós, sem voz embora para exigir os seus direitos.
Jorra a água, fresquinha, prontamente desaparece na caldeira seca, onde também tomba o suor que me escorre em bica da testa, turva os óculos, queima os olhos. Lá para as onze termino. No regresso, acelero o tractor para sentir a brisa fresca na face, afrouxo nas sombras. Coisas boas da vida, uma brisa em dia de calor, uma sombra fresca de onde não apetece sair — mas outros afazeres me esperam. Engatar a charrua e tentar lavrar, mesmo sabendo que a terra está seca, calcada, quase impenetrável. Com esforço meu e do tractor lá consigo mexer pequena leira para o meu sobrinho começar horta. Há que estimular os jovens, talvez tomem o gosto, nos sucedam nos amanhos, no combate ao mato e aos silvados, no prazer com que comemos e damos aquilo que produzimos: neste início de Agosto, pêssegos como os de antigamente, pêras piramidais como as de Camões, abrunhos, pepinos, feijão verde, courgettes — o Verão é estação de abundância.
Termino por volta das duas da tarde. Duche frio, que regalo, à moda de Carlos da Maia, que mesmo prolongado não é suficiente para me arrefecer. O termómetro marca 32 graus, ainda vai subir até aos 35. Almoço, sesta, regresso ao Entroncamento pela estrada que há 40 anos me leva e traz da aldeia. Esperam-me 38 graus, plantas desmaiadas com sede, criação a precisar de cuidados. 
Para o jantar, grelho na chapa hambúrgueres, acompanhamo-los com pão torrado, pepino, pêssegos e pêras. No banco de jardim das traseiras da casa faço companhia ao cão. Excepcionalmente ponho gelo no uísque. E um bom café, Nespresso oblige.
Estão ainda 32 graus. Lá mais para diante, talvez a temperatura desça e possa abrir as janelas. Mas só quando estiver mais fresco fora que dentro.
Chega até mim a música pimba que inevitavelmente traz o Verão. Sempre os peitos da cabritinha. Pelo tecto do terraço, osgas caçam. Curiosamente, nos Montes, como em geral no Oeste, não há osgas. Não me incomodam: os inimigos dos meus inimigos meus amigos são. 
Pressinto que vai ser outra noite mal dormida, novamente incomodado com o suor que me correrá pelo pescoço. Coisa de campónio, isto de suar. Gente fina transpira. E pouco, para não manchar a gravata.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Montalegre

No segundo dia da nossa viagem pelo Norte motivada pela vontade de visitar  alguns dos locais da revolta da Maria da Fonte, fomos de Vieira do Minho a Terras do Bouro, depois recuámos por Vieira, rumo a Montalegre, Boticas e Chaves, onde pernoitámos. Fazia muito calor (foi a 26 de Junho) e só refrescámos com banho na piscina do hotel.
Na foto, Montalegre, vista dos muros do castelo. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

São Bento da Porta Aberta

No segundo dia da nossa viagem por terras da Maria da Fonte (26/6), saímos de Vieira do Minho em direcção a Terras do Bouro. Inevitavelmente parámos em São Bento da Porta Aberta, sítio lindo entre a montanha e a barragem. Afora a beleza da paisagem, apenas um susto com os travões, que felizmente não passou disso.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Abnegação e heroísmo

Dos bombeiros, que por essas matas arriscam a vida. Que sofrem o calor, esforços desumanos, perigos ora calculados, ora inesperados, muita incompreensão  por parte daqueles por quem lutam, alguns dos quais, em desespero, chegam ao extremo de os agredir, como se os bombeiros fossem, para além de heróis anónimos, super-homens e super-mulheres capazes de tudo salvar. 
Salvar dos incendiários, protegidos por leis meigas, juízes complacentes. Salvar da nossa incúria, pois não protegemos as matas, não fazemos acessos, não lhes damos meios de socorro adequados para impedir que quando cercados pelas chamas se vejam ameaçados por morte horrível, na flor da idade, sem prémios de risco, sem associações de sargentos e de oficiais a defender mordomias, alcavalas, privilégios incompreensíveis nestes tempos de crise — com o argumento de que a pátria lhes exige a própria vida.
Em cada Verão, quando o país arde, são os humildes bombeiros que o defendem, abnegadamente, incansavelmente, sem horário de trabalho, nem gratificações, nem ajudas de custo, nem promoções. Poucos recebem condecorações por bravura, como se cada bombeiro, cada bombeira, não fosse um valente. Capaz de fazer pela nação, pela terra, pelo povo, aquilo que eu não faço, que os militares não fazem: arrastar penosamente mangueiras encosta acima para que não arda tudo, por vezes rodeados pelas chamas, queimados até, para que algumas árvores sobrevivam até ao próximo Verão.